Brasil deve aumentar a produção de biocombustíveis para atingir objetivos de descarbonização, indica CNI

O crescimento do consumo de combustíveis de baixo carbono no Brasil demandará investimentos para expandir a capacidade de produção e evitar problemas no abastecimento. Apesar dos biocombustíveis já representarem uma parcela importante na matriz energética brasileira, o ritmo de crescimento da oferta será crucial para cumprir as metas de descarbonização nos próximos anos. Essa recomendação consta em um estudo recentemente divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Intitulado “Combustíveis no Brasil: análise do mercado e perspectivas para a descarbonização”, o levantamento indica que cerca de 25% da energia utilizada no transporte brasileiro em 2025 terá origem em biocombustíveis. Esse resultado está ligado às políticas de diversificação da matriz energética e ao fomento da produção nacional.

Segundo a CNI, para manter esse nível e aumentar a participação dos combustíveis renováveis, será fundamental garantir que a indústria esteja preparada para suprir o crescimento da demanda. O presidente da entidade, Ricardo Alban, reforça que a transição energética deve considerar não apenas as metas ambientais, mas também a segurança do abastecimento e o desenvolvimento das cadeias produtivas.

“A expansão dos biocombustíveis configura uma oportunidade estratégica para o Brasil, mas sua consolidação dependerá da capacidade de alinhar políticas de demanda e oferta, investimentos produtivos, infraestrutura, financiamento e avanço tecnológico”, ressaltou.

De acordo com Rennaly Sousa, especialista em Infraestrutura da CNI, o Brasil possui uma vantagem significativa devido à experiência acumulada ao longo de décadas na produção e uso de biocombustíveis.

“Esses elementos contribuíram para diversificar a matriz energética. Essa é uma vantagem importante que demonstra a capacidade do país em desenvolver soluções para a descarbonização, além de indicar que o Brasil pode ocupar uma posição ainda mais de destaque no mercado global. O desafio atual é ampliar essa estrutura e atrair investimentos para avançar também em novas alternativas”, destacou.

Biodiesel e etanol terão aumento na demanda até 2035

Entre os segmentos já consolidados, biodiesel e etanol precisarão ampliar a capacidade produtiva para atender ao crescimento do consumo. No caso do biodiesel, a elevação progressiva da mistura obrigatória ao diesel deve impulsionar a demanda nos próximos anos.

A CNI projeta que o consumo desse combustível atingirá 18 bilhões de litros em 2035. Para suportar esse volume, os investimentos em novas unidades e expansão das plantas existentes precisam acompanhar o crescimento do mercado. O estudo também alerta que misturas acima de 20% podem requerer investimentos adicionais e aumentar o risco de restrições no abastecimento caso a produção não evolua no mesmo ritmo.

Quanto ao etanol, a estimativa aponta para uma demanda de 46 bilhões de litros em 2035. O crescimento será impulsionado tanto pelo aumento do percentual de etanol anidro misturado à gasolina quanto pelo consumo do etanol hidratado.

Apesar da capacidade industrial instalada, a oferta enfrenta limitações ligadas à sazonalidade da produção, disponibilidade de matéria-prima e competição entre a fabricação de açúcar e etanol. Esses fatores podem dificultar o atendimento constante do mercado, mesmo com a expansão da demanda.

Diesel verde e SAF necessitam de novos investimentos

No caso do diesel verde e do Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês), o desafio é maior, pois as cadeias produtivas ainda estão em fase inicial no Brasil.

Para o diesel verde, a possibilidade de adoção de uma mistura de até 3% gera uma demanda potencial de cerca de 2,5 bilhões de litros em 2035. Contudo, o país ainda não conta com uma estrutura comercial de produção em escala suficiente para suprir esse montante.

A expansão do mercado dependerá da instalação de novas unidades industriais, da disponibilidade de matérias-primas, infraestrutura e acesso a hidrogênio de baixo carbono.

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No setor aéreo, a necessidade de ampliar a produção de SAF está associada à entrada em vigor de novas regulamentações. O Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV) começará a impor obrigações a partir de 2027. Também em 2027, inicia-se a segunda fase do CORSIA, mecanismo internacional de compensação e redução das emissões na aviação.

Diante desse cenário, o estudo recomenda medidas que minimizem os riscos dos investimentos, ofereçam financiamento de longo prazo e incentivem a formação de fornecedores e o desenvolvimento tecnológico no Brasil.

Monitoramento da produção e ajustes na política de preços

Para evitar que o aumento das metas de descarbonização cause dificuldades no abastecimento, a CNI sugere ações que deem mais previsibilidade aos investimentos e aproximem a expansão da demanda da capacidade real de produção.

Uma das propostas é alinhar a política de preços dos combustíveis aos objetivos de descarbonização. Além disso, a entidade propõe a criação de um Comitê Permanente de Monitoramento de Biocombustíveis, com representantes do setor público e dos envolvidos no setor.

O comitê teria como função acompanhar os projetos industriais, a capacidade real de produção, a disponibilidade de matérias-primas e possíveis riscos de desabastecimento. Essas informações serviriam de base para ajustes graduais nas metas e nos percentuais obrigatórios de mistura, conforme a evolução da oferta.

Outra recomendação é estabelecer uma política de comércio exterior específica para biocombustíveis, facilitando importações quando a produção nacional for insuficiente e permitindo medidas excepcionais e temporárias de controle de exportações em situações de pressão sobre a oferta ou preços.

“Isso representa oportunidades para geração de empregos, inovação e desenvolvimento da indústria brasileira. Aumentar a participação de combustíveis produzidos internamente fortalece a segurança do abastecimento e pode reduzir a dependência de importações, diversificando as fontes de energia e minimizando os efeitos das oscilações internacionais, especialmente por conflitos geopolíticos”, complementou Rennaly Sousa.

Para estimular a produção de diesel verde e SAF, a CNI defende instrumentos específicos de apoio aos investimentos, como contratos de fornecimento de longo prazo, mecanismos concorrenciais de financiamento, garantias, compartilhamento de riscos tecnológicos e incentivo à formação de uma cadeia nacional de fornecedores.

Expansão da oferta deve acompanhar metas ambientais

Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI, ressalta que a política de biocombustíveis precisa avançar além dos incentivos ao consumo e garantir condições para ampliar a produção nacional.

“A próxima etapa da política brasileira de biocombustíveis requer, portanto, ir além da criação de demanda, assegurando condições para que a oferta cresça de maneira competitiva, sustentável e suficiente”, destacou.

O estudo conclui que o Brasil tem condições de ampliar sua presença no mercado de combustíveis de baixo carbono, ressaltando que esse avanço dependerá da transformação do potencial produtivo em investimentos, novas unidades industriais e desenvolvimento tecnológico.

Conciliar a ampliação dos biocombustíveis com a segurança do abastecimento será essencial para avançar na descarbonização sem comprometer a competitividade da indústria e a previsibilidade para os agentes econômicos.

Workshop discute oportunidades para o mercado de combustíveis

A discussão sobre o futuro do mercado brasileiro de combustíveis também foi tema de um workshop promovido pela CNI em 28 de outubro. O evento reuniu especialistas e representantes dos setores público e produtivo para debater os desafios e oportunidades da transição energética no país.

Participaram do debate Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI; Rennaly Sousa, especialista em Infraestrutura da entidade; Edmar de Almeida, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ); Carlos Orlando, diretor executivo de Downstream do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP).

Também estiveram presentes Edie Andreeto Junior, diretor do Departamento de Combustíveis Derivados do Petróleo do Ministério de Minas e Energia; Mario Campos, presidente da Bioenergia Brasil; e Mozart Rodrigues, diretor executivo do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom).

Durante o evento, Edmar de Almeida destacou que a produção de petróleo e o desenvolvimento de combustíveis renováveis podem avançar simultaneamente no Brasil. Para ele, a diversidade da matriz energética nacional é uma oportunidade para o setor.

“O Brasil pode ser uma potência petrolífera e também uma potência em combustíveis renováveis. O desafio é para o setor e para todos nós. Não é uma contradição, mas uma oportunidade. Nenhum outro país possui uma matriz tão diversificada quanto a nossa no setor de transportes”, explicou.

Edie Andreeto Junior abordou a relação entre biocombustíveis e segurança energética, apontando que o aumento da produção interna de fontes renováveis pode reduzir a dependência brasileira de derivados importados.

“O Brasil exporta petróleo bruto e importa os principais derivados de petróleo. O maior volume importado é o óleo diesel, com cerca de 25% da demanda nacional atendida por importações, principalmente da Rússia e dos Estados Unidos. Já a participação dos biocombustíveis na matriz energética é significativa, reduzindo a necessidade de importação“, concluiu.

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