O transporte de mercadorias em contêineres entre portos brasileiros — conhecido como cabotagem — pode reduzir em até 8,2% as emissões líquidas de CO₂ de todo o setor de transporte de cargas no país. Essa informação é baseada em um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
De acordo com o levantamento, o Brasil tem potencial para quadruplicar o volume de cargas transportadas por cabotagem a longo prazo.
Para alcançar esse crescimento, serão necessários:
- novos investimentos em infraestrutura portuária;
- melhorias nas condições de acesso aos portos;
- criação de novas linhas regulares de serviço;
- redução da burocracia e mudança na cultura logística dos empresários.
Atualmente, a cabotagem representa apenas 9,2% do transporte de cargas no país. Considerando apenas os portos que já oferecem o serviço, o estudo indica que o volume de cargas transportadas por contêineres entre portos brasileiros pode crescer até 163%, mais que o dobro do nível atual. Nesse cenário, a estimativa é de redução de 4,5% nas emissões de CO₂.
Eficiência ambiental e econômica
O setor de transportes em geral responde por 13,5% das emissões líquidas brasileiras de gases de efeito estufa (GEE). Dentre esse total, o transporte rodoviário concentra 92% desse volume, refletindo a forte dependência do Brasil desse modal, que representa 66,2% da matriz de transporte nacional.
A cabotagem, por outro lado, é significativamente menos poluente. Em média, esse tipo de transporte emite entre 12% e 15% do volume de CO₂ gerado por caminhões para transportar a mesma quantidade de carga.
Segundo a CNI, além do benefício ambiental, o transporte de cargas a longa distância por navios também reduz externalidades negativas comuns ao transporte rodoviário, como acidentes, roubo de carga, avarias e congestionamentos nas estradas.
O mestre em transporte pela Universidade de Brasília (UnB), Emmanuel Aldano, afirma que os ganhos surgem a partir da substituição do grande fluxo de caminhões pelo transporte de cabotagem.
“A grande vantagem de migrar essa carga para operações de modo transporte de alta capacidade, como a cabotagem marítima, é que você desafoga as rodovias, aumenta a eficiência econômica dessas operações e, consequentemente, melhora o meio ambiente. Para a indústria, é muito importante que essa descarbonização das operações logísticas também venha com esse olhar da eficiência econômica”, destaca.
No entanto, a eficiência dos modais logísticos depende da distância percorrida.
- Até 500 km: o transporte rodoviário é mais competitivo, especialmente para cargas de maior valor agregado.
- Entre 500 km e 1.500 km: o modal ferroviário apresenta maior eficiência.
- Acima de 1.500 km: o transporte marítimo se destaca como a alternativa mais vantajosa.
Na comparação direta entre transporte rodoviário e cabotagem, a vantagem marítima começa a se consolidar entre 850 km e 1.050 km.
Emmanuel Aldano explica que cada modo de transporte tem suas especificidades, por isso, não existe um modal melhor que o outro. “O que existe é uma melhor aplicabilidade em relação ao tipo de carga, frequência, volume, bem como a melhor conexão possível entre o ponto A e o ponto B, que muitas vezes envolve mais de um modal”, esclarece.
Desafios da cabotagem no Brasil
Segundo o estudo, um dos principais obstáculos para a expansão da cabotagem no Brasil é a exigência documental semelhante à do transporte internacional de longa distância, mesmo em operações domésticas.
Além da burocracia, são necessários investimentos para tornar o setor mais competitivo. Entre os principais gargalos apontados estão:
- acesso precário aos portos, que causa atrasos e eleva custos;
- necessidade de dragagem — limpeza e aprofundamento do fundo dos portos — para permitir a entrada de navios maiores;
- falta de capacidade dos terminais, o que pode prejudicar o funcionamento regular das operações.
O especialista em infraestrutura da CNI, Ramon Cunha, ressalta que a expansão do setor depende da superação desses desafios.
“Precisamos superar várias dificuldades, entre elas o baixo investimento em infraestrutura portuária, as restrições na oferta de linhas regulares para a prestação dos serviços de cabotagem, a própria burocracia do setor e até a necessidade de desmistificação do modal. Isso envolveria uma mudança na cultura logística dos empresários nacionais para que compreendam os benefícios da cabotagem”, destaca.
Novo Marco da Cabotagem
Diante desse cenário, a CNI defende a necessidade de um ambiente regulatório favorável ao setor e avalia que o Marco Legal da Cabotagem (Lei 14.301/22) foi um avanço importante para incentivar o transporte de cargas entre portos brasileiros e fortalecer a indústria naval.
A regulamentação da lei pelo Decreto 12.555/2025 introduziu critérios relacionados ao uso de embarcações mais sustentáveis. Segundo a CNI, após a publicação do decreto, quatro novas empresas passaram a operar no país e 16 embarcações foram incorporadas à frota, aumentando a oferta de serviços e contribuindo para um maior equilíbrio na matriz de transporte de cargas.
Em dezembro de 2025, o governo federal abriu consulta pública para definir as regras de classificação de embarcações sustentáveis.
No entanto, Ramon Cunha alerta que exigências excessivas podem ter efeito contrário ao esperado.
“Se forem impostos critérios rígidos e excessivos para o cumprimento dessas embarcações sustentáveis, a portaria pode causar efeitos contrários, dificultando não só a expansão do modal, mas também fazendo com que usuários atuais migrem suas operações para alternativas mais poluentes, como o transporte rodoviário”, explica.
Para o especialista, a redistribuição das cargas entre os diferentes modais, respeitando a vocação de cada um, já seria um passo importante não só para reduzir emissões, mas também para diminuir custos logísticos e aumentar a segurança nas rodovias brasileiras.
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