Diante das tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos, empresas brasileiras do setor alimentício buscam ampliar sua atuação no mercado europeu. Na SIAL Paris 2026, 156 empresas brasileiras apresentaram seus produtos para compradores internacionais, sendo que 74 delas foram impactadas pelas medidas comerciais norte-americanas. A feira, realizada a partir de 17 de outubro nas proximidades de Paris, França, encerrou-se na quarta-feira (21).
A presença do Brasil no evento também foi parte da estratégia da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) para ajudar empresas nacionais a diversificar os mercados de exportação. Na inauguração do Pavilhão Brasil, o presidente da Agência, Laudemir Müller, ressaltou a relevância dessa tendência.
“Do total das empresas presentes, 74 foram impactadas, de alguma forma, pelas tarifas extras impostas pelos Estados Unidos (EUA). A ApexBrasil tem apoiado esses empresários na busca por outros mercados, oferecendo condições diferenciadas de suporte”, afirmou.
Müller também relacionou o desempenho das exportações à contribuição do agronegócio para a economia brasileira e às perspectivas de crescimento do país.
“Apesar dos grandes desafios globais, o Brasil apresenta resultados muito positivos nas exportações e deve se tornar a oitava maior economia do mundo, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), além de avançar para consolidar-se como o maior exportador mundial de alimentos”, destacou.
“O fato de o Brasil poder alcançar a oitava maior economia mundial no próximo ano está diretamente ligado às exportações, que influenciam nossa política monetária e estão fortemente associadas à participação expressiva do agronegócio na economia e no comércio exterior brasileiro”, complementou Müller.
Exportações do agronegócio alcançam US$ 169,2 bilhões em 2025
A participação brasileira na feira ocorreu após um ano de crescimento das vendas externas do setor. Em 2025, as exportações do agronegócio totalizaram US$ 169,2 bilhões. Esse valor representa um aumento de 3% em relação a 2024 e corresponde a 48,5% das exportações brasileiras, conforme dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
A edição de 2026 também ocorreu após o início da aplicação provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, vigente desde 1º de maio de 2026. A delegação brasileira incluiu empresas de variados portes, grandes cadeias exportadoras e cooperativas da agricultura familiar. A diversidade de produtos incluiu proteínas animais e alimentos relacionados à sociobiodiversidade brasileira.
“O interessante desta feira é que temos muitos setores diferentes. Contamos com representantes de biscoitos, de fécula de mandioca, depois de balas e doces, seguida por uma empresa com geleia e mel. Ou seja, é realmente um pouco de tudo o que o nosso agronegócio tem a ofertar, uma forma de mostrar à Europa que o acordo gera oportunidades para pequenas empresas brasileiras, para cooperativas da agricultura familiar, e que o Brasil é um parceiro para o que o consumidor europeu deseja consumir,” explicou o gerente de Agronegócio da ApexBrasil, Pedro Netto.
No evento, o Brasil ocupou mais de dois mil metros quadrados distribuídos em quatro pavilhões, localizados nos halls 4, 5, 6 e 8 do centro de exposições Paris Nord Villepinte.
VEJA MAIS:
- ApexBrasil aproxima produtoras brasileiras de parceiros internacionais na Mostra de Cinema de São Paulo
- Setor de rochas naturais brasileiro busca novos mercados para exportações
A organização estima que a SIAL Paris reuniu cerca de 8 mil expositores de 130 países, 650 startups e mais de 400 mil produtos. A expectativa era receber 295 mil profissionais de aproximadamente 194 países. O evento ocupou uma área de 280 mil metros quadrados e reuniu compradores, importadores, distribuidores, redes de supermercados e representantes da indústria mundial de alimentos.
Entre os participantes, estavam 5 mil grandes compradores com um poder de compra estimado em € 60 bilhões. Segundo a organização, em média, 83% dos compradores realizam negócios durante a feira ou nos meses seguintes.
Oportunidades para exportadores
De acordo com o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Augusto Billi, a feira aconteceu em um momento de expansão do acesso dos produtos agropecuários brasileiros ao mercado internacional. Billi enfatizou a importância da colaboração entre governo e iniciativa privada para ampliar as vendas externas e superar barreiras comerciais.
“Temos conseguido aumentar progressivamente as exportações graças ao trabalho conjunto entre ApexBrasil, Ministério da Agricultura, Ministério das Relações Exteriores e setor privado”, declarou.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, destacou a presença da carne bovina brasileira no comércio global e a parceria da entidade com a ApexBrasil. Ele também mencionou as restrições enfrentadas no mercado europeu e a busca por novas oportunidades em outros mercados.
“A carne bovina brasileira tem uma presença muito significativa no mercado mundial. A parceria entre ABIEC e ApexBrasil, que já dura mais de 20 anos, tem sido crucial para promover a carne bovina brasileira em diversos países. Durante a feira, representantes do setor mantiveram contato e buscaram alternativas para superar as restrições comerciais impostas à proteína animal brasileira na Europa e explorar novas oportunidades em outros mercados”, ressaltou.
O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, também ressaltou os resultados da colaboração com a ApexBrasil na promoção internacional dos produtos brasileiros e mostrou-se otimista com o desempenho das empresas nacionais.
“Essa parceria de longa data foi fundamental para levar os produtos brasileiros aos mercados internacionais. Esse trabalho fortaleceu a promoção das marcas Brazilian Chicken, Brazilian Egg e Brazilian Breeds, projetos setoriais em conjunto com a ApexBrasil, além de divulgar a qualidade sanitária e a capacidade produtiva do setor, e apoiar a busca por soluções para a retomada dos fluxos comerciais afetados por restrições sanitárias”, avaliou.
Atuação das cooperativas da agricultura familiar
A presença de 14 cooperativas da agricultura familiar com estandes próprios foi uma das ações brasileiras na SIAL Paris 2026. Essa iniciativa faz parte do programa Cooperar para Exportar, da ApexBrasil, e busca aproximar pequenos produtores de compradores internacionais.
Os representantes das cooperativas apresentaram produtos de diversos biomas brasileiros, como castanhas-do-brasil, castanhas de caju, baru, derivados do Cerrado, mel e outros alimentos ligados à biodiversidade e à bioeconomia.
A presidente da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes), Fátima Torres, destacou os impactos econômicos e sociais da participação na feira.
“O mundo deseja consumir produtos da sociobiodiversidade. Cada contrato firmado por nossas cooperativas com países da União Europeia gera mais renda e mais segurança alimentar para o campo brasileiro”, afirmou.
Bebidas inspiradas na Amazônia ganham prêmio internacional
Durante o evento, a empresa brasileira AMZ Tropical conquistou o Beverages Award, na categoria Bebidas, do SIAL Innovation Awards. Fundada na Amazônia, a companhia foi a única brasileira entre as 28 vencedoras da premiação, que avaliou mais de 2,7 mil produtos.
O CEO da empresa, Leandro Daher, recebeu o prêmio pelas quatro bebidas prontas inspiradas na biodiversidade amazônica: Amazônico Negroni, Limoncello Amazônico, Fitzgerald Amazônico e gin de jambu em versão associada à COP30.
“Estamos muito orgulhosos de ganhar este prêmio com bebidas que representam a Amazônia e nossas raízes. Receber este reconhecimento para o Brasil e para a Amazônia tem um significado incrível. Agradeço à ApexBrasil pelo apoio constante à nossa empresa e aos nossos projetos”, agradeceu Daher.
A inauguração do Pavilhão Brasil contou ainda com a presença do chefe do Setor de Promoção Comercial e Investimentos (Secom) da Embaixada do Brasil na França, ministro Caio Renault; do vice-governador do Rio Grande do Sul, Gabriel Souza; do diretor global da ABPA, Luis Rua; e da presidente da Unicafes, Fátima Torres.
Também participaram os gerentes da ApexBrasil Carla Duarte, responsável por Relações Institucionais e Governamentais; e Pablo Lira, de Eventos, além de compradores e visitantes.


