A mudança para uma economia de baixo carbono deve abandonar o foco exclusivo na formulação de compromissos e ser encarada como uma agenda voltada para implementação prática, sustentabilidade e competitividade industrial. Esse foi o tom dos debates no evento “Pré-COP31: o papel do setor privado na agenda climática”, realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta quarta-feira (7), em Brasília.
Durante a reunião, líderes empresariais defenderam que o Brasil deve abordar a pauta ambiental não de forma isolada, mas como um vetor essencial para atrair investimentos e aumentar a presença da indústria nacional nos mercados globais.
De acordo com o vice-presidente da CNI, Marcelo Thomé, a ambição climática dos países precisa avançar junto com condições concretas de aplicação dentro das fábricas.
“A transição para uma economia de baixo carbono não deve ser vista apenas como uma agenda ambiental. Ela é, também, uma agenda de desenvolvimento econômico, competitividade, inovação e inserção internacional do Brasil“, destacou Thomé, que também preside a Federação das Indústrias do Estado de Rondônia.
“Precisamos evoluir de uma agenda predominantemente focada na formulação de compromissos para uma agenda focada na implementação, avaliando resultados pela capacidade de transformar prioridades em investimentos, projetos, tecnologias, empregos e oportunidades”, ressaltou Thomé.
Negociação constante e multilateralismo
A importância de manter o diálogo internacional e fortalecer a resiliência das empresas também foi ressaltada. O diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto de Oliveira Muniz, reforçou que o setor privado é parte da solução e destacou a necessidade de continuar participando das negociações globais apesar das instabilidades geopolíticas.
“Os recentes eventos geopolíticos que atacam o multilateralismo nos dão uma certeza: nunca podemos deixar de negociar. Muitos países perderam impulso nessa agenda, o que dificulta a atuação das empresas com essa pauta em seu core business”, alertou Muniz.
Para o diretor, a descarbonização e as políticas de transição devem fomentar a competitividade nacional: “Essa não é uma agenda para criar obstáculos, mas sim para gerar oportunidades”, complementou.
Abordando os impactos diretos na vida das pessoas, o diretor superintendente do SESI DN, Paulo Mól Júnior, afirmou que o debate climático deve colocar as pessoas e a saúde no centro das decisões.
“Toda política acaba afetando as pessoas. O debate geralmente está focado na esfera político-econômica e pouco centralizado na questão social – e isso é um risco. Precisamos ter esse olhar micro sobre como essas ações impactam a saúde e o cotidiano nas regiões”, defendeu Mól.
Tecnologia e rastreabilidade brasileira
O protagonismo tecnológico e a capacidade industrial do país também foram temas centrais no debate. O presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Olavo Noleto, ressaltou que a indústria brasileira dispõe de ferramentas exclusivas para comprovar práticas sustentáveis e competir no mercado internacional, como a rastreabilidade do plástico reciclado por meio da nota fiscal eletrônica.
“Temos a melhor tecnologia do mundo para comprovar material reciclado. Por meio da nota fiscal eletrônica, conseguimos certificar o nível de reciclagem. É necessário comprovar essa reciclagem na disputa do mercado europeu, pois queremos competir e temos condições para isso”, afirmou Noleto.
O evento Pré-COP31 faz parte da preparação do setor produtivo brasileiro para a 31ª Conferência do Clima das Nações Unidas, que ocorrerá em novembro, em Antália, Turquia. Na ocasião, o setor privado participará do Implementation Hub Pavilion, na Zona Azul da conferência, além de integrar iniciativas da Sustainable Business COP (SB COP) para apresentar projetos de alto impacto na economia de baixo carbono.
Desafios no campo: transição sustentável e acesso ao crédito
Durante os painéis, foram discutidos os desafios reais para implementar a transição de baixo carbono na agropecuária e garantir a inclusão dos pequenos produtores na pauta sustentável.
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O diretor Global de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da MBRF, Paulo Pianez, destacou a complexidade da cadeia pecuária e afirmou que qualquer exigência para transformação ambiental precisa ser rentável para o produtor rural.
“Não adianta falar com o produtor sobre mudanças climáticas ou produção mais sustentável, isso não o atinge diretamente. O diálogo deve ser: como podemos aumentar sua rentabilidade e fazer seu negócio gerar mais lucro?”, pontuou Pianez.
Ele ainda ressaltou a necessidade de uma “concertação” entre governos, indústrias e universidades para criar instrumentos de crédito e financiamento acessíveis.
A diretora de Sustentabilidade da JBS, Liege Correia, chamou a atenção para o fato de que a maior barreira para o pequeno produtor obter financiamento e adotar práticas sustentáveis está na regularização ambiental e na burocracia do Cadastro Ambiental Rural (CAR).
“A agricultura e a produção mundial de alimentos têm 30% nas mãos dos pequenos produtores. Antes do crédito, há a etapa da regularização. Se o produtor não tem o CAR regularizado, não consegue acessar o crédito”, explicou Liege. Ela reforçou a importância de uma atuação conjunta do setor privado e público para garantir três pilares essenciais no campo: regularização ambiental, assistência técnica contínua e gestão.
Mineração e Indústria: mecanismos de mercado e financiamento
A urgência de acelerar a descarbonização das indústrias de difícil abatimento – sem prejudicar segurança energética, competitividade e crescimento econômico – foi tema do painel focado no setor mineral e de infraestrutura.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA) e do Conselho Temático de Infraestrutura da CNI, Alex Carvalho, lembrou os legados gerados na Amazônia e defendeu que a mineração deve ser um vetor central do desenvolvimento sustentável.
“Muito se falou sobre legado e continuidade. A agenda de mineração trouxe cases, inputs e deixou legados para que a sustentabilidade fosse, inclusive para a população da Amazônia, entendida como um vetor de desenvolvimento socioeconômico”, afirmou Alex Carvalho.
Ele também apontou o gargalo no financiamento climático global, destacando que dos US$ 60 bilhões captados pelo Brasil em 2023, 81% ficaram concentrados somente em energia solar e eólica, sendo necessário direcionar recursos para projetos industriais financiáveis.
Ao comentar o papel da mineração na relação entre descarbonização e competitividade, o diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Pablo Cesário, defendeu o uso de mecanismos de mercado e incentivos baseados em preços para promover mudanças comportamentais em grande escala.
“Mudanças em larga escala exigem alterações de comportamento, que na maioria das vezes acontecem por meio de mecanismos de mercado. O incentivo de preço continua sendo um dos mais importantes”, explicou Cesário.
No setor mineral, o CEO da Samarco, Rodrigo Vilela, reforçou que não há transição energética sem mineração, destacando o compromisso da indústria em reduzir as emissões na produção de minerais essenciais para a economia de baixo carbono.
“Não existe transição energética sem mineração. A mineração é fundamental para esse processo. Os minerais críticos e minerais em geral são essenciais para essa transição, e nós estamos nos adaptando cada vez mais, mostrando produtos com menor emissão e maior competitividade”, ressaltou.
Saúde, clima e resiliência
A pauta do seminário também abordou o impacto das mudanças climáticas na vida dos trabalhadores e comunidades. O superintendente de Saúde da Indústria do SESI, Emmanuel de Souza Lacerda, reforçou que preservar a saúde e focar na prevenção de doenças são aliados diretos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa no país.
“Se o setor de saúde fosse um país, seria o quinto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. Na verdade, quem emite não é a saúde, mas a doença, pois são as pessoas que adoecem e demandam hospitais. A melhor estratégia é cuidar das pessoas e investir em prevenção, o que terá o maior impacto em mitigação“, explicou Lacerda.
Saneamento e tecnologia digital
Os debates também destacaram a importância de integrar infraestrutura essencial – como saneamento e digitalização – ao planejamento estratégico dos municípios. Na ocasião, a diretora de Relações Institucionais da AEGEA, Andrea Haggstram, enfatizou que o saneamento deixou de ser apenas uma infraestrutura básica para se tornar um eixo central de adaptação climática e resiliência urbana.
“O saneamento não é mais uma infraestrutura básica, é uma infraestrutura para adaptação climática, segurança hídrica e resiliência urbana. O mercado financeiro não financia intenções, financia engenharia, conectada à segurança jurídica e previsibilidade regulatória”, pontuou Andrea Haggstram. Ela destacou que a empresa emitiu quase 30 bilhões em títulos de dívida ESG desde 2022, evidenciando o forte interesse global por ativos sustentáveis.
Complementando a visão de inovação territorial, o chefe de Gabinete da ABDI, Nikolas Passos, apontou que a difusão de tecnologias maduras – como gêmeos digitais e modelagem BIM (Building Information Modeling) – é o caminho mais eficiente para modernizar cidades brasileiras e reduzir custos operacionais e ambientais.
“Trabalhamos muito com o conceito de difusão tecnológica. Qual tecnologia já está pronta para aplicar? Com o BIM, que integra arquitetura e engenharia, é possível produzir com mais tecnologia e eficiência, reduzindo custos.”, destacou Nikolas Passos. Ele reforçou que tornar essas ferramentas disponíveis em código aberto na internet é fundamental para impulsionar o desenvolvimento tecnológico em municípios de todos os portes.



