De códigos de socorro às armadilhas do deepfake: guia de segurança para o primeiro encontro em apps de namoro

De códigos de socorro às armadilhas do deepfake: guia de segurança para o primeiro encontro em apps de namoro

A relação da comunicadora Iara Rodrigues*, 26 anos, com os aplicativos de relacionamento é marcada por forte ambivalência. Embora reconheça a necessidade dessas plataformas para conhecer pessoas, a catarinense desgosta do contato com pretendentes no ambiente virtual. Ao longo dos anos, a jovem criou um protocolo de segurança complexo antes de aceitar ver pessoalmente qualquer homem com quem trocou mensagens.

Nos aplicativos de relacionamento, o medo também acompanha o encontro. Foto: Reprodução/ChatG

A vivência de Iara reflete um fenômeno coletivo: a necessidade de estabelecer protocolos rígidos de segurança para aceitar encontrar pessoalmente quem conheceu pela internet. Esse comportamento resulta tanto da migração das relações amorosas para o espaço digital (com uma falsa sensação de proteção) quanto dos elevados índices de violência de gênero no mundo físico.

A psicóloga e psicanalista Lívia Boaretto observa que os encontros românticos tornaram-se um “fator estressor” sistêmico para as mulheres, pois exigem planejamento contínuo de rotas de fuga e a elaboração de cenários trágicos antes mesmo de sair de casa:

“Como uma mulher vai entrar em um relacionamento amoroso, que deveria ser leve e agradável, quando o primeiro encontro já se converteu em estresse? Acabamos nos resguardando tanto que nos fechamos a outras relações. Inevitavelmente, isso nos leva a maior solidão”, avalia.

Falando assim, pode até soar como paranoia. No entanto, todo cuidado é pouco. Até escolho a roupa para não causar um impacto muito ‘uau’. É horrível, mas parece que todos os passos até chegar ali são para dar a menor brecha possível a algo ruim. É exaustivo

Iara Rodrigues*, comunicadora

Pesquisadora sobre violência contra a mulher, Lívia ressalta que o medo não é exagerado diante da realidade: “Nem todos os homens são iguais, mas é preciso reconhecer que algo muito sério está acontecendo. Em 2025, registramos o recorde de décadas em feminicídios, com milhares de mulheres mortas por homens”, alerta.

A preocupação expressa encontra respaldo nos números de segurança pública. O país alcançou, em 2025, o maior patamar de feminicídios desde a mudança no Código Penal, em 2015. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública contabilizou 1.571 casos no ano passado; um aumento de 4% em comparação às 1.504 mortes registradas em 2024.

Minorias e a violência de ódio nos apps

A insegurança no ecossistema dos aplicativos não atinge apenas mulheres heterossexuais. Para a comunidade LGBTQIA+, pessoas negras e pessoas com deficiência (PcDs), o flerte virtual pode se transformar em isca para crimes de ódio, extorsão e agressões físicas graves.

Especialistas ouvidas pelo TecMundo identificaram que, no público feminino heterossexual, prevalecem táticas de manipulação psicológica como o love bombing (excesso proposital de demonstrações de afeto para gerar dependência) e o estelionato amoroso. Já em apps voltados à comunidade LGBTQIA+, como o Grindr, os golpes tendem a ter desfechos mais violentos fisicamente.

A delegada da 2ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, Tatiana Bastos, destaca que investigações apontam um modus operandi ainda mais ostensivo nessas plataformas:

“Na delegacia de combate à intolerância, realizamos a Operação Moedor, direcionada a crimes cometidos no Grindr. Registramos casos de extorsão, do golpe conhecido como ‘Boa Noite Cinderela’, lesões corporais graves, invasões de domicílio e espancamentos. A vulnerabilidade de pessoas LGBTQIA+ e o temor do estigma social fazem desses grupos alvos frequentes de criminosos que se valem do anonimato digital”, pontua a delegada, que atua no enfrentamento de crimes cibernéticos e na proteção de grupos vulneráveis.

As múltiplas camadas de preconceito fazem com que pessoas negras e pessoas trans enfrentem riscos adicionais, que vão da fetichização e discriminação a situações em que o agressor explora a vulnerabilidade social da vítima para chantageá-la.

O medo da violência e do anonimato virtual também influencia a rotina de João Vitor Alcantara, 26 anos. Morador de Santo André, no ABC paulista, o pesquisador resume o dilema enfrentado por homens gays na passagem das telas para as ruas: a tensão entre a curiosidade de conhecer alguém e a necessidade prática de montar filtros de segurança.

Para reduzir riscos antes do primeiro “date” presencial, Alcantara adotou um protocolo de verificação centrado na rede de sociabilidade do pretendente. A regra de ouro é não aceitar encontros sem antes checar o perfil nas plataformas digitais:

O Instagram me permite confirmar se a pessoa realmente existe e como é o seu cotidiano. Se alguém só me passa o WhatsApp, evito ir direto para a casa dessa pessoa. Em encontros casuais, exijo saber se há amigos em comum ou uma rede de apoio. Se a pessoa tem boa convivência com a comunidade, tende a ser mais tranquila. É minha forma de traçar um perfil para me sentir seguro

João Vitor Alcantara, pesquisador

Entre amigos da comunidade LGBTQIA+, o receio da extorsão não é só hipótese teórica. João lembra o caso de um amigo que, após um encontro casual marcado por app, passou a ser chantageado pelo agressor com a ameaça de divulgar vídeos íntimos gravados sem consentimento para familiares e colegas de trabalho.

“Ele pensou muitas vezes em não procurar a polícia por medo do estigma de ser LGBT e por estar exposto numa situação muito íntima. Orientamos que fosse à delegacia para detalhar a chantagem. Ele registrou o Boletim de Ocorrência e obteve a proteção necessária, mas é o tipo de caso que assusta toda a comunidade”, lamenta.

Quando o encontro finalmente ocorre em local público (normalmente bares ou cinemas de rua já conhecidos), a vigilância permanece ativa. Além do receio de golpes, há uma segunda camada de tensão: o medo da homofobia urbana ao demonstrar afeto.

“Há uma ansiedade constante na comunidade. Durante um encontro em público, observo o entorno antes de segurar a mão ou beijar. Preciso avaliar se estou seguro e se o parceiro se sente à vontade. Isso prejudica a qualidade do encontro, pois deixa de ser só sobre nós e passa a ser sobre como a sociedade nos enxerga”, desabafa.

Principais pontos abordados na cartilha de segurança para encontros presenciais

O TecMundo/Estadão acompanha a digitalização das relações afetivas. Para minimizar riscos e evitar que a busca por afeto termine em trauma ou prejuízo, reunimos recomendações práticas da delegada Tatiana Bastos, da professora de Direito Digital Rubia Ferrão, da advogada Gisele Truzzi e da Secretária de Políticas para a Mulher do Estado de São Paulo, Adriana Liporoni.

Segurança digital e checagem prévia

  • Desconfie do ‘Love Bombing’ e da urgência: Golpistas agem rápido. Declarações afetivas intensas em poucos dias, promessas exageradas e apelidos carinhosos prematuros servem para criar intimidade falsa. Se surgir qualquer pedido de dinheiro associado a um senso de urgência (viagem, conta bloqueada, investimento), encerre o contato;
  • A técnica da inversão da narrativa: Mude o foco das perguntas. Faça questões detalhadas sobre rotina, trabalho e família. Golpistas e catfishes tendem a desaparecer ou bloquear quando percebem que perderam o controle da conversa;
  • Busca reversa de imagem: Use ferramentas como o Google Lens para verificar se as fotos do perfil do aplicativo ou do Instagram foram apropriadas de terceiros ou retiradas de fontes públicas;
  • Varredura nas redes sociais: Avalie a coerência do perfil. Contas com muitos seguidores, mas sem interações reais, ou perfis sem fotos com amigos, familiares e registros do dia a dia são sinais de alerta;
  • Cuidado com os links e a coleta de dados: Nunca clique em links enviados por pretendentes (mesmo que pareçam matérias de imprensa ou vídeos). Eles podem conter mecanismos para extrair dados do seu aparelho. Evite compartilhar informações como data de nascimento, nomes de animais de estimação ou local exato de trabalho;
  • Nudes e o perigo das Deepfakes: Não envie fotos ou vídeos íntimos. A legislação avançou na punição da montagem de nudes e do uso de Inteligência Artificial (IA) para violência psicológica (como o art. 147-B do Código Penal e a Lei 15.487/2026 no ECA), mas remover completamente um conteúdo que circula no WhatsApp ou Telegram é praticamente impossível.

Segurança física e presencial

  • Escolha do terreno neutro: Marque o primeiro encontro estritamente em locais públicos e movimentados (shoppings, food halls ou restaurantes centrais). Sugira o lugar;
  • Não aceite caronas nem vá a locais isolados: Vá e volte por conta própria (transporte público, táxi, aplicativo ou carro). Não aceite carona no primeiro encontro e evite ir à casa do pretendente ou a locais privados alugados (como Airbnbs);
  • Rede de apoio e Sinal de Socorro: Compartilhe sua localização em tempo real com amigos ou familiares de confiança. Combine um código de segurança (um emoji específico ou palavra-chave no WhatsApp) para pedir socorro discretamente. Em bares e restaurantes, memorize o Signal for Help (o sinal internacional de socorro feito com a mão dobrando o polegar) para alertar funcionários ou mesas próximas;
  • Atenção redobrada à bebida: O consumo excessivo de álcool diminui o tempo de reação e aumenta a vulnerabilidade. Mantenha o copo sempre à vista para evitar o golpe do “Boa Noite Cinderela”. Lembre-se de que as fases iniciais dessa substância podem gerar euforia e aparente consentimento nas câmeras antes de provocar apagões de memória;
  • Postagens em tempo real: Evite publicar stories ou fotos com localização ao vivo enquanto estiver no encontro para não facilitar a ação de stalkers (perseguidores).

Verificação de antecedentes e a lei

Com a proliferação de aplicativos e bots que afirmam puxar o histórico criminal de pretendentes a partir de dados como número de telefone ou chave Pix, surge um debate jurídico relevante sobre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o papel do Estado. O TecMundo produziu, inclusive, uma reportagem especial sobre o tema.

A professora de Direito Digital Rubia Ferrão destaca que a busca individual feita por pessoa física não configura violação da LGPD:

Para a pessoa física que realiza a pesquisa para fins estritamente particulares e não comerciais, a LGPD não se aplica. Quando a consulta é feita por plataformas privadas, elas costumam alegar legítimo interesse para proteger a integridade de mulheres e de pessoas vulneráveis

Rubia Ferrão, advogada e professora de Direito Digital

Por outro lado, a advogada Gisele Truzzi e a delegada e Secretária de Políticas para a Mulher do Estado de São Paulo, Adriana Liporoni, alertam sobre os limites dessas ferramentas:

  1. Falsa sensação de segurança: Aplicativos de checagem privada consultam apenas dados públicos de processos já julgados e com condenação transitada em julgado. Portanto, eles não exibem boletins de ocorrência em andamento ou medidas protetivas de urgência ativas, pois esses procedimentos correm em segredo de justiça;
  2. Sigilo da Lei de Execução Penal (LEP): Pelo art. 202 da LEP, após o cumprimento ou extinção da pena, o histórico do indivíduo entra em sigilo automático para fins civis. Se um aplicativo privado divulgar essa condenação antiga e causar prejuízos (como difamação ou perda de emprego), a plataforma pode responder por responsabilidade civil e danos morais;
  3. A responsabilidade do Estado: Adriana Liporoni reforça que nenhuma ferramenta privada substitui os canais oficiais de proteção. “A preocupação das mulheres em checar antecedentes é legítima, mas não podemos naturalizar a ideia de que a mulher deve assumir sozinha a responsabilidade pela sua segurança. A segurança pública é dever do Estado”, ressalta.

Como acionar a rede de proteção pública

Se você for vítima de algum crime digital, chantagem, extorsão ou agressão:

  • Preserve o ‘corpo de delito digital’: Não apague mensagens ou o perfil do agressor. Faça capturas de tela que mostrem a URL completa do perfil (o link do navegador) ou o número de telefone completo. O nome de usuário (@) pode ser alterado rapidamente pelo criminoso;
  • Canais de Emergência e Denúncia:

*O nome de Iara Rodrigues foi alterado a pedido da personagem para preservar sua privacidade

scroll to top