Cada mecha prateada traz lembranças. No Cabelos de Prata, essas memórias viram brilho. Nesta quinta-feira, 1º de outubro, Dia Internacional do Idoso, o projeto celebra reinvenções e novos começos. A iniciativa da Prefeitura de Boa Vista transforma os espaços de convivência em ambientes onde a vida não se apaga, apenas muda de compasso.
Criado em 2001 e regulamentado pela Lei Municipal nº 843, de 21 de março de 2006, o projeto da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SEMADS) recebe pessoas a partir dos 60 anos e hoje conta com 1.379 participantes. Em cada Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), a programação é pensada para nutrir corpo e alma com esporte, lazer, cultura, dança e, principalmente, encontros que fazem bem.

A data lembrada nesta quinta-feira foi proclamada em 14 de dezembro de 1990 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, por meio da Resolução 45/106, com o objetivo de assegurar direitos e dignidade a quem acumulou tantos anos de vida.

A secretária municipal da SEMADS, Nathália Cortez, considera o Cabelos de Prata um dos projetos mais belos da assistência social no município. Para ela, o espaço vai muito além das atividades oferecidas: a rotina é desenhada para cuidar de todas as dimensões dos participantes, unindo movimento, cultura e convivência.
“Nossos idosos participam de uma programação cuidadosamente pensada para promover qualidade de vida e bem‑estar. Eles realizam atividades físicas, culturais e recreativas. Os momentos de lazer, integração e socialização são oportunidades para que fiquem juntos e criem novas amizades. É um ambiente de cuidado e valorização da vida”, ressaltou Nathália.

Alguns amores chegam na hora certa, mesmo quando já não se espera. No Cabelos de Prata, surgem encontros, olhares se cruzam e histórias recomeçam. A secretária ressaltou também o efeito da convivência para combater o isolamento e a depressão, além de fortalecer a autoestima e a autonomia dos participantes.
“Temos muitos viúvos e viúvas que se conhecem no projeto e chegam a casar novamente. Também desenvolvem habilidades e mantêm uma vida ativa e participativa. Talvez esse seja um dos resultados mais importantes do Cabelos de Prata: o sentimento de pertencimento, em que o idoso encontra um lugar de acolhimento, cria vínculos e tem sua presença valorizada”.


O amor que floresce na melhor idade
Há também narrativas que começam onde menos se imagina. No Cabelos de Prata, entre passos de dança, conversas e sorrisos, o afeto encontrou espaço. Maria da Luz e Bernardo Valdir, do CRAS Pintolândia, comprovam que surpresas acontecem em qualquer fase da vida. O casal está junto há um ano e cinco meses e se conheceu durante um ensaio de arraial para o Boa Vista Junina 2025.
Dona Maria da Luz, 74 anos, natural de Paranavaí (PR), vive em Boa Vista há 44 anos e frequenta o Cabelos de Prata há 15. Antes participava do CRAS Nova Cidade e entrou no projeto por convite de uma amiga. “Eu dizia que ainda não tinha idade. Quando cheguei aos 60 anos, comecei a ir e gostei muito. A gente se distrai com as pessoas, essa convivência com novos amigos é ótima para a saúde e para a mente”, contou.

Em meio aos ensaios para o arraial e outras apresentações juninas, ela conheceu Seu Bernardo, que participava pelo CRAS Pintolândia. O encontro foi inesperado: embora cada um tivesse par naquele momento, o destino conduziu de outra forma.
“Um dia eu estava sentada na arquibancada observando o movimento, e esse senhor veio e se sentou ao meu lado. Conversa vai, conversa vem, ele perguntou se eu era solteira e eu disse que sim. Ele também estava, e trocamos contatos”, relatou Maria.
“Ela disse que estava solteira, então peguei o número dela”, contou Bernardo Valdir, 77 anos. “Convidei para passear numa praça no Nova Cidade. Nem passaram três dias e já estávamos juntos”.
Bernardo é natural de Tutóia (MA), mora em Boa Vista há 26 anos e frequenta o Cabelos de Prata há cinco. Era casado, mas ficou viúvo.
“Quando entrei no projeto, eu tinha esposa, mas pouco tempo depois ela faleceu e fiquei sozinho. Depois de três anos aqui, conheci outra pessoa, que não foi pra frente. Foi então que conheci a Maria. Estamos muito bem e tranquilos. É uma excelente companheira e sou muito grato a Deus por ter proporcionado isso na minha vida”, disse ele.

Dona Maria da Luz também fala com afeto do companheiro que encontrou no projeto. Ela, que não esperava reviver algo assim, descreve Seu Bernardo como um parceiro presente e de bom caráter.
“O tempo passa rápido. Ele é muito amigo, companheiro, e nos damos muito bem. Não esperava algo assim, ainda mais na idade que tenho. Foi tudo muito rápido, mas é bom estar com alguém de caráter, que não dá trabalho e está sempre presente”.
*Supervisionado por Shirleia Rios*




