Análise: Avatar Legends: The Fighting Game — um jogo de luta singular, com aspectos tanto bons quanto ruins

Análise: Avatar Legends: The Fighting Game — um jogo de luta singular, com aspectos tanto bons quanto ruins

Quem cresceu na era do PlayStation 2 provavelmente tem boas recordações dos jogos lançados para aproveitar o hype de grandes filmes. Era comum ver adaptações de franquias como Matrix, Carros e até Ratatouille estreando nas lojas junto das produções cinematográficas, com resultados muitas vezes inconsistentes.

Essa prática quase desapareceu ao longo dos anos, mas algo parecido acabou de ocorrer no mercado atual. Com a estreia do filme Avatar Aang: O Último Mestre do Ar, a Paramount apostou em Avatar Legends: The Fighting Game, um novo jogo de luta situado no universo criado por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko.

smart_display

Nossos vídeos em destaque

Embora a trama do jogo não seja diretamente ligada ao novo longa, é inegável que ambos fazem parte de um plano maior para expandir a franquia. O problema é que essa conexão parece ter acelerado o desenvolvimento do jogo, algo perceptível em certos pontos do lançamento.

O Voxel experimentou Avatar Legends: The Fighting Game no PlayStation 5 com uma chave fornecida pela desenvolvedora Gameplay Group na última semana. Apesar de apresentar sinais claros de que precisava de mais alguns meses de polimento, o resultado final me surpreendeu positivamente — tanto como jogador quanto como fã — e demonstra que existe uma base muito sólida para o futuro do título.

Um jogo de luta com conteúdo compatível ao seu escopo

Quando um jogo baseado em uma licença conhecida é anunciado, admito que minhas expectativas costumam ser moderadas. Fora exceções de grande orçamento como Marvel’s Spider-Man ou Batman: Arkham, a maioria dessas produções entrega experiências competentes, mas raramente inesquecíveis — em alguns casos, totalmente esquecíveis.

Essa desconfiança também vem de adaptações anteriores da própria Paramount. Séries como Bob Esponja e jogos como Nickelodeon Kart Racers têm boas ideias, mas muitas vezes deixam a impressão de que poderiam ser mais ambiciosas com mais verba ou tempo de desenvolvimento.

Foi por isso que comecei Avatar Legends esperando algo relativamente simples, feito para capitalizar a marca. Felizmente, bastaram poucas partidas para notar que havia bem mais dedicação aqui do que costumamos ver em produtos desse tipo.

O primeiro mérito está no volume de conteúdo oferecido. Mesmo sendo um projeto menor se comparado aos gigantes do gênero, Avatar Legends traz campanha, modo Arcade, multiplayer local e online com rollback netcode e crossplay, modo treino robusto, galeria de artes e várias ferramentas que demonstram preocupação em atender tanto jogadores casuais quanto competitivos.

Essa variedade de modos faz toda a diferença, pois permite que o jogo se sustente mesmo para quem não pretende jogar partidas online diariamente. Em vez de limitar-se a uma campanha curta e um versus padrão, a Gameplay Group entregou um pacote que justifica seu lugar na biblioteca dos fãs.

O modo história tem limitações, mas diverte

O ponto alto do conteúdo para um jogador é a campanha principal, com cerca de 30 capítulos. A narrativa reúne personagens de épocas distintas do universo Avatar em uma aventura com distorções temporais e dimensões paralelas, permitindo encontros entre Aang, Korra, Kyoshi e Zaheer que dificilmente ocorreriam na cronologia oficial.

Segundo a desenvolvedora, toda a história foi criada em parceria com a Paramount e acompanhada pelos responsáveis pela franquia. Isso ajuda a preservar a personalidade dos personagens, mesmo em uma trama que brinca bastante com o conceito de multiverso.

A narrativa do modo história permite encontros inesperados durante o gameplay.

Pessoalmente, o enredo não me prendeu tanto quanto eu esperava. A trama funciona como um pretexto para confrontos curiosos, mas raramente entrega momentos realmente marcantes para quem acompanha Avatar há anos.

A apresentação também revela limitações de produção. Quase todas as cutscenes usam os próprios cenários das lutas, e os personagens aparecem executando animações diretamente do gameplay, resultando em sequências que às vezes soam inadvertidamente engraçadas.

Por outro lado, a campanha acerta em pontos importantes. Toda a narrativa é narrada em inglês, com legendas em português brasileiro, e consegue expandir o universo sem se reduzir a um simples modo Arcade disfarçado de história.

A localização, porém, ainda precisa de ajustes em partes do jogo. Nos testes encontrei pequenas inconsistências na interface, incluindo traduções literais como “Wins” sendo exibido apenas como “Vitórias” e outros detalhes que dão a impressão de faltar uma revisão final antes do lançamento.

Ainda assim, o modo história cumpre bem o papel de apresentar os sistemas do jogo e incentivar a experimentar diferentes personagens. Mesmo sem ser memorável, diverte graças ao elemento que sustenta Avatar Legends do começo ao fim: sua jogabilidade.

Jogabilidade é complexa e divertida

Avatar Legends: The Fighting Game poderia ter seguido fórmulas consagradas por Street Fighter, Mortal Kombat ou Guilty Gear. Em vez disso, a Gameplay Group optou por criar uma identidade própria, desenvolvendo um sistema que pode intimidar inicialmente, mas recompensa quem se dedica a entendê-lo.

O grande destaque é o Sistema de Foco. Além das habituais barras de vida e de energia para ataques especiais, cada personagem gerencia um medidor voltado a ações ofensivas e defensivas, que altera completamente o ritmo dos combates.

undefined
O sistema de Foco garante uma jogabilidade única para Avatar Legends.

Na prática, isso significa que quase toda decisão envolve gerir recursos. Gastar Foco para pressionar o adversário pode resultar em combos devastadores, mas também deixa o personagem exposto se a barra acabar no momento errado.

O mais interessante é que esse recurso também serve para defesa. Ao segurar o botão de Foco em certos ataques, o personagem executa esquivas automáticas muito elegantes, consumindo parte da barra e permitindo escapar de sequências que normalmente seriam inevitáveis.

Meu recurso predileto acabou sendo o Escape de Foco. Quando o adversário me encurralava na borda da arena, bastava gastar parte da barra para inverter completamente o posicionamento, criando situações raras em outros jogos do gênero.

A movimentação também ganha identidade graças às dobras de cada personagem. Aang plana usando correntes de ar, enquanto Zuko e Azula espalham chamas pelo cenário, fazendo com que cada lutador não só possua golpes distintos, mas também maneiras diferentes de controlar espaço nos combates.

Essa diversidade torna Avatar Legends surpreendentemente original dentro de um gênero tão competitivo. Mesmo depois de dezenas de partidas, eu ainda descobria interações, combinações e possibilidades que me incentivavam a alternar personagens em busca de novas estratégias.

Elenco enxuto, mas cheio de personalidade

Outro destaque é o elenco de personagens. No lançamento, Avatar Legends: The Fighting Game conta com apenas 12 lutadores jogáveis, número significativamente menor que o de grandes franquias do gênero. Ainda assim, a variedade fica compensada pela personalidade de cada combatente.

A seleção traz protagonistas, aliados e vilões das duas principais séries da franquia. Em vez de focar apenas em nomes óbvios, a Gameplay Group incluiu personagens menos esperados, agradando fãs de diferentes fases do universo Avatar.

undefined
O elenco de lançamento conta com 12 lutadores.

Lutadores disponíveis no lançamento:

  • Aang
  • Avatar Aang (desbloqueável)
  • Korra
  • Nightmare Korra (desbloqueável)
  • Katara
  • Sokka
  • Toph
  • Kyoshi
  • Zuko
  • Azula
  • Ozai
  • Zaheer

Quem comprar a edição Deluxe também terá acesso ao Passe do Ano 1, que adicionará mais cinco personagens nos próximos meses. Quatro já confirmados são: Iroh, Ty Lee, Lin Beifong e Bolin; o quinto será escolhido pela comunidade entre Amon, Kuvira, Rei Bumi, Asami Sato e Tenzin.

A Gameplay Group também confirmou que Tagah, personagem do novo filme, será distribuído gratuitamente a todos os jogadores. A estratégia indica que o estúdio pretende manter o jogo ativo após o lançamento, algo essencial para qualquer título de luta hoje em dia.

Outro sistema interessante é o de personagens de suporte. Antes de cada luta é possível escolher um aliado que permanece fora da arena e oferece habilidades específicas durante o combate, permitindo composições mais ofensivas, defensivas ou voltadas ao controle de espaço.

Mesmo com um elenco reduzido, fica claro que cada personagem tem identidade própria. Jogar com Aang é completamente diferente de controlar Korra, enquanto personagens como Sokka e Kyoshi se destacam pelo carisma e pelas soluções criativas com que seus golpes foram adaptados ao gênero de luta.

Nem tudo, contudo, está no mesmo patamar. Ozai, por exemplo, parece menos refinado que o restante do elenco, com animações mais simples e mecânicas que ainda precisam de ajustes — algo que a própria desenvolvedora reconheceu e prometeu corrigir em atualizações futuras.

Modos entregam um pacote muito competente

Além da campanha principal, Avatar Legends oferece um modo Arcade com pequenas histórias individuais para cada lutador. Não são narrativas profundas, mas servem como bônus divertidos para incentivar experimentar todo o elenco.

O pacote inclui partidas locais para dois jogadores, um modo Treino extremamente completo e partidas online com rollback netcode e crossplay entre plataformas. Para um projeto desse porte, fica difícil reclamar da quantidade de conteúdo disponível já no lançamento.

undefined
Como esperado, Avatar Legends traz suporte para partidas locais entre dois jogadores.

O modo Treino merece elogios pelas ferramentas oferecidas. Hitboxes, frame data, gravação das ações do adversário e um Passo a Passo para ataques no tutorial mostram que o estúdio pensou na comunidade competitiva.

Ao mesmo tempo, algumas ausências são notáveis e evidenciam que o jogo chegou ao mercado antes do ideal. O modo Ranqueado, o Espectador, a Zona para Iniciantes, desafios de combos e parte do conteúdo da edição Deluxe não estavam disponíveis durante nossos testes.

Alguns bônus de pré-venda também não haviam sido liberados poucos dias após o lançamento. Isso não compromete a qualidade do jogo, mas afeta a percepção inicial de quem pagou por versões mais caras esperando todo o conteúdo imediatamente.

A boa notícia é que a Gameplay Group tem sido transparente nas redes sociais e já divulgou um cronograma de atualizações. Ver um estúdio ouvir a comunidade e reconhecer problemas logo na estreia gera confiança de que Avatar Legends pode melhorar bastante nos próximos meses.

Complexo para iniciantes, mas belo para todos

Assim como no universo Avatar, muito poder pode virar desafio. O sistema de luta é muito rico, mas a quantidade de mecânicas pode intimidar quem só conhece a animação e não tem experiência com jogos de luta.

Existe um tutorial relativamente detalhado, mas que exige bastante leitura e nem sempre explica conceitos importantes de forma intuitiva. Em certos momentos, tive a impressão de que o jogo pressupõe que o jogador já conheça termos comuns do gênero.

undefined
Ler alguns tutoriais é essencial, embora nem sempre as páginas sejam muito amigáveis.

Curiosamente, isso não impede que iniciantes se divirtam. No meu primeiro contato com Avatar Legends joguei várias partidas com um amigo também fã da série e, mesmo sem dominar as mecânicas, conseguimos confrontos equilibrados usando apenas golpes básicos e ataques especiais.

Essa acessibilidade inicial funciona melhor do que o tutorial em si. O famoso “button mashing” gera momentos caóticos, engraçados e surpreendentemente justos, permitindo que jogadores casuais se divirtam antes de explorar as camadas mais profundas do sistema.

No aspecto visual, Avatar Legends merece muitos elogios. As animações desenhadas à mão reproduzem com grande fidelidade o estilo da série, e os efeitos das dobras transformam praticamente todas as lutas em episódios interativos.

Os cenários ajudam na imersão, embora o número de arenas seja limitado. Cada local possui detalhes, referências e elementos visuais que qualquer fã reconhecerá imediatamente.

Uma carta de amor aos fãs de Avatar

Entre acertos e tropeços, uma sensação se mantém durante todo o jogo: Avatar Legends foi claramente feito por e para quem aprecia esse universo. Mesmo quando encontra limitações de orçamento ou sofre com um lançamento apressado, o jogo demonstra grande carinho pelo material original.

Isso aparece nas animações exclusivas de cada lutador, nas referências nos cenários, nos diálogos, nos personagens de suporte e até na galeria de artes. É um cuidado que dificilmente passa despercebido para quem acompanha Avatar desde A Lenda de Aang.

undefined

Por isso, Avatar Legends consegue algo que muitos jogos licenciados não alcançam. Além de ser um bom jogo de luta por seus próprios méritos, também funciona como uma expansão divertida do universo, dando aos fãs a chance de reunir personagens de gerações diferentes em confrontos que não ocorreriam na cronologia oficial.

Se a Gameplay Group cumprir o cronograma de atualizações prometido, ajustando a localização, refinando personagens e adicionando modos ausentes, há um caminho promissor pela frente. A base construída é sólida o suficiente para justificar esse investimento.

Vale a pena?

Avatar Legends: The Fighting Game é um jogo de luta bonito, divertido e surpreendentemente competente para um projeto baseado em uma licença popular. Seu sistema de combate cria uma identidade própria, e o elenco, ainda que pequeno, apresenta estilos variados e um pacote de conteúdo acima do esperado para uma estreia.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que o lançamento foi antecipado. Problemas de localização, conteúdos prometidos ausentes e personagens que precisam de mais polimento impedem que o jogo atinja um nível ainda superior.

A boa notícia é que nada disso parece estrutural. A Gameplay Group tem sido transparente, ouve a comunidade e já anunciou melhorias, o que faz Avatar Legends parecer mais um jogo em evolução do que um projeto abandonado após a estreia.

Com preços a partir de R$ 89, o título representa uma boa compra para fãs de Avatar e jogadores que buscam algo diferente no gênero. Se você prefere experiências totalmente polidas, talvez valha a pena esperar algumas atualizações ou uma promoção, mas fica a sensação de que este pode ser apenas o primeiro capítulo de uma franquia de luta promissora.

Nota do Voxel: 85/100

Pontos positivos (Prós):

  • Sistema de luta criativo e distinto de outros jogos do gênero
  • Personagens com estilos de jogo realmente diferentes
  • Direção de arte excelente, inspirada nas animações
  • Boa quantidade de conteúdo para um projeto desse porte
  • Rollback netcode e crossplay disponíveis no lançamento
  • Grande carinho pelo universo de Avatar

Pontos negativos (Contras):

  • Lançamento claramente apressado
  • Problemas de localização em português brasileiro
  • Alguns personagens ainda precisam de refinamento
  • Tutorial poderia explicar melhor as mecânicas básicas

Uma cópia de Avatar Legends: The Fighting Game foi cedida pela desenvolvedora para a realização da análise. O jogo já está disponível para PC, PS5 e Nintendo Switch, com a versão para Xbox Series S/X chegando em 3 de setembro. O título também deverá ganhar uma edição para Switch 2 futuramente.

Plugin WordPress Cookie by Real Cookie Banner
scroll to top