Na noite desta terça-feira, 16, a Arena Junina marcou um momento inédito. Pela primeira vez, o Boa Vista Junina apresentou números da nova categoria Diamante, criada este ano para ampliar as chances de evolução das agremiações e reconhecer ainda mais o trabalho dos quadrilheiros.
A estreia deixou claro que a categoria já chega forte. Garranxê, Amor Caipira e Agitação Caipira transformaram o tablado em palco de histórias que percorreram o sertão, a memória popular e a fé, arrancando aplausos e emocionando o público lotado nas arquibancadas.
Para Chiquinho Santos, apresentador e coordenador do Concurso de Quadrilhas, a criação da categoria já apresenta resultados visíveis. A novidade elevou a competitividade nas divisões Acesso e Especial, enquanto a Diamante confirma que a decisão da Fundação de Educação, Turismo, Esporte e Cultura (FETEC) foi bem tomada.
“As agremiações investem e a Prefeitura de Boa Vista também dá apoio direto à produção dos espetáculos. Esse suporte fortalece o trabalho e resulta em apresentações mais completas, criativas e competitivas”, afirmou.
A força de um povo que não se rende
Responsável por abrir a noite, a Garranxê apresentou A Resistência. Baseado na histórica reação do povo de Mossoró, em 1927, contra a investida do bando de Lampião, o espetáculo exaltou a união de uma comunidade que enfrentou o medo para defender sua terra, tratando de coragem coletiva, identidade e fé.
“É sempre uma emoção enorme. Trouxemos um tema muito forte, que é a resistência. Fala de uma cidade que conseguiu fazer Lampião recuar. Viemos representar essa força, essa garra — isso é a Garranxê: força, coragem, união e fé”, disse a noiva Stephane Martins.
Quando a estrada muda o destino
A segunda apresentação trouxe uma narrativa sensível e humana. Com o tema Na Boleia do Destino, a Amor Caipira narrou a trajetória de Nazinha, uma mulher marcada pela violência que encontra nas estradas do sertão a chance de recomeçar.
Acompanhada por Antônio, dono da boleia, Nazinha enfrenta provações e cruza com personagens como Antenor, Lampião e Maria Bonita, que influenciam sua história e ajudam a tecer a memória e a identidade sertaneja mostradas no espetáculo. As populações pelas quais ela passa representam a resistência diária do sertão: gente que acolhe, resiste e mantém viva sua cultura.
O enredo também se refletiu na vida de quem o interpretava. “Como mulher e mãe batalhadora, sinto que esse tema representa não só a quadrilha e a cultura, mas também a mim. É muito emocionante estar nesta categoria. Ao mesmo tempo, bate aquele frio na barriga, porque queremos sempre evoluir e permanecer entre os melhores”, contou Juliana Mangabeira, noiva da Amor Caipira.
Um encontro entre o santo e a festa
Fechando a noite, a Agitação Caipira apresentou O São João que João não viu, um espetáculo que conduziu o público por uma viagem entre passado e presente. Na história, Isabel e Zacarias recebem a ajuda de um cigano para viajar no tempo e encontrar São João Batista ainda vivo.
A proposta é ao mesmo tempo simples e grandiosa: mostrar ao santo as diversas manifestações culturais surgidas em sua homenagem pelo Brasil e pedir a sua bênção para o casamento dos protagonistas. A peça percorre tradições, crenças e expressões populares, evidenciando como a devoção a São João virou uma das grandes celebrações da identidade brasileira.
Ao deixar a arena, o sentimento era de missão cumprida. “Saímos do palco emocionados, com a cabeça a mil e sem fôlego. Mas acreditamos que entregamos um bom trabalho. Entendemos o projeto, construímos nossa narrativa e esperamos que o público tenha conseguido captar isso. Agora é confiar em um veredito justo”, disse Rafael Nascimento, noivo da Agitação Caipira.
O olhar de quem conhece grandes espetáculos
Entre o público estava Milton Cunha, que acompanhou as apresentações e se declarou impressionado com o nível técnico das agremiações de Roraima. Além dos elogios, ele deixou um incentivo para que os artistas locais valorizem ainda mais as referências culturais da Amazônia.
“Podem usar materiais da floresta, lendas e mistérios daqui. Quando um povo trabalha seu valor e sua narrativa, a cidade celebra. O que vi aqui é surpreendente, grandioso. Uma estrutura ao estilo ‘sapucaiana’. É emocionante ver a vontade das pessoas de contar suas histórias. Isso aquece o coração e mostra que o Brasil segue profundamente artístico”, afirmou.
Uma paixão que atravessa gerações
Nas arquibancadas, a emoção também estava presente. A vendedora ambulante Fernanda Richelli já participou da festa dentro da arena e hoje assiste como espectadora, mantendo a mesma paixão. “Este é um dos eventos que mais espero no ano. É maravilhoso! Espero por esta época o ano inteiro. Já dancei por muitos anos e continuo apaixonada”, contou.
Tem mais Arena Junina nesta quarta-feira, 17
18h – Quadrilha Juventude na Roça (Projeto Crescer)
19h – Grupo Diamante
Coração Caipira
Zé Monteirão
Eita Junino




