Vertu: descubra a enigmática trajetória da marca de celular usada por Virgínia

Vertu: descubra a enigmática trajetória da marca de celular usada por Virgínia

A influenciadora Virgínia Fonseca (@Virginia, no Instagram) apareceu em Dubai exibindo um celular de luxo, o Agent Q Stitched Calfskin, em uma postagem publicada em 19 de maio deste ano. O aparelho rapidamente ganhou destaque nas redes sociais após a influenciadora compartilhar fotos segurando o dispositivo de grife.

O Agent Q Stitched Calfskin é um celular Android da Vertu, uma marca de nicho cujo portfólio é composto exclusivamente por aparelhos de luxo. A fabricante é pouco conhecida internacionalmente por ter um público-alvo extremamente restrito, já que seus celulares custam vários milhares de dólares — como o Agent Q de Virgínia, anunciado por US$ 5.380 (cerca de R$ 27,3 mil na cotação atual).

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O que é o celular Agent Q da Vertu?

O Agent Q foi lançado pela Vertu em novembro de 2025. Segundo a empresa, o aparelho foi pensado para “fundadores solo ou startups enxutas”, já que pode executar várias tarefas de forma autônoma — comprar passagens, agendar reuniões, analisar concorrentes e lidar com comunicações rápidas — por meio de um agente de inteligência artificial próprio.

A seguir, os principais dados técnicos do Agent Q:

  • Tela: AMOLED de 6,02″, Full HD, 120 Hz;
  • Processador: Qualcomm Snapdragon 8 Elite Supreme (3 nm);
  • Memória: 16 GB de RAM;
  • Armazenamento: 1 TB;
  • Câmeras: Principal 50 MP (sensor IMX906), Ultrawide 50 MP, Telefoto 64 MP com OIS, Frontal 32 MP;
  • Conectividade: 5G, Wi-Fi 7, Bluetooth 5.4 e NFC;
  • Bateria: 5.564 mAh com recarga rápida de 65 W;
  • Extras: Chip A5 para criptografia, alto-falantes duplos DTS Ultra.

Nessa composição, surgem inconsistências bastante evidentes. Embora o chipset mais recente da Qualcomm realmente seja o Snapdragon 8 Elite (e suas variantes), o modelo Snapdragon 8 Elite Supreme nunca foi anunciado oficialmente, e não há registro de outro aparelho que afirme utilizar esse componente.

Há a possibilidade de a Vertu ter encomendado uma versão exclusiva do Snapdragon 8 Elite para seus aparelhos, como a Samsung fez com o Snapdragon 8 Elite for Galaxy nos Galaxy S26. No entanto, não há documentação pública que comprove essa parceria, ao contrário do Snapdragon 8 Elite for Galaxy, cuja existência é confirmada pela própria Qualcomm.

Também há sinais estranhos na apresentação das especificações. No site oficial da Vertu — tanto na página do produto quanto no material de imprensa —, as descrições das câmeras aparecem com formatações inconsistentes: a abertura é às vezes indicada com “F” maiúsculo e em outras com “f/”.

Quanto às câmeras, as especificações ficam aquém do esperado para um topo de linha. O sensor IMX906 da câmera principal é o mesmo usado em celulares intermediários bem mais baratos, como o antigo Galaxy A55.

Visualmente, o aparelho tem um design bastante excêntrico: laterais curvadas, bordas de tela bastante proeminentes — algo incomum entre flagships —, câmeras dispostas em fila horizontal com um dos sensores centralizado. O modelo visto nas fotos de Virgínia aparenta ter a traseira revestida em couro.

O Agent Q apresenta um visual atípico entre os flagships, com bordas espessas e acabamento em couro. (Fonte: Vertu/Divulgação)

A descrição do aparelho também menciona 200 agentes de IA proativos, lentes com “zoom mecânico” que simulam a perspectiva humana e um botão lateral chamado “Ruby Talk” para acionar o assistente virtual.

O youtuber de tecnologia Marques Brownlee publicou uma análise do aparelho no YouTube em janeiro deste ano. O criador aponta características questionáveis do dispositivo, incluindo software pouco polido, bordas de tela excessivamente evidentes e até a ausência de recursos anunciados, como a abertura variável na câmera principal.

Brownlee também relatou uma experiência confusa, demorada e repleta de erros ao usar o assistente virtual nativo. O processo de compra de uma simples camisa levou mais tempo que uma compra comum e foi realizado inteiramente por chat.

Vertu é uma fabricante “incomum”

Outro youtuber de grande alcance, Arun Maini (Mrwhosetheboss), investigou o histórico da empresa. Ele apurou que a Vertu nasceu dentro da Nokia em 1998, como uma divisão dedicada a aparelhos de luxo. Na época, um dos diferenciais apontados era a montagem totalmente artesanal no Reino Unido.

A companhia enfrentou sérias dificuldades financeiras, demissões em massa e o fechamento da fábrica britânica original. Em 2018, ressurgiu sob nova gestão com operações centralizadas na China.

Durante sua apuração, Maini identificou aspectos curiosos sobre a Vertu:

  • O site da Vertu é repleto de imagens renderizadas e mostra erros de edição aparentes;
  • A empresa publica artigos sobre celulares com baixo rigor factual. Em um dos textos citados pelo youtuber, a marca indica o “Galaxy Z Flip 7 Ultra” como principal opção da categoria — um aparelho que não existe, o que sugere conteúdo gerado por IA sem revisão;
  • A Vertu promove produtos no TikTok com vídeos pensados para viralizar, mas contém erros de digitação, perfil sem verificação e uso excessivo de emojis.

O celular também não corresponde totalmente à publicidade, segundo o youtuber. Ao testar o serviço de concierge para reservar um hotel, Maini observou indícios de que o assistente era operado por humanos — com erros de digitação e respostas inconsistentes.

O software do dispositivo também levanta suspeitas: ao analisar a estrutura do sistema, Maini encontrou referências à ZTE em nomes de processos internos, o que indica que a plataforma pode não ser proprietária.

Como um Vertu Agent Q chegou à Virgínia?

Virgínia não deu detalhes sobre o aparelho nas publicações em que ele aparece. As fotos, porém, destacam o dispositivo, mostrando a influenciadora segurando-o ou usando-o em chamadas.

No momento da publicação desta matéria, a influenciadora já utiliza um iPhone 17 Pro Max laranja, como nas postagens realizadas antes da viagem a Dubai.

Não há confirmação de que houve um acordo comercial entre Virgínia e a Vertu, mas é fato que as imagens ajudaram a colocar a marca na mídia nacional e a atrair a atenção do público brasileiro. Em pouco tempo, o aparelho apareceu em diversos veículos, cujas reportagens focaram no preço do celular de grife e não mencionaram as estratégias suspeitas da marca ou as inconsistências do Agent Q.

O que diz a Vertu?

O TecMundo entrou em contato com a Vertu por e-mail e atualizará o texto caso a empresa se manifeste.

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