Selic recua para 14,5%, mas permanece acima do nível ideal para a indústria

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Em reunião realizada na última quarta-feira (29), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (Bacen) diminuiu a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual (p.p.), passando de 14,75% para 14,5% ao ano.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), essa redução discreta é insuficiente para reverter a desaceleração da atividade econômica e pode, inclusive, desestimular a recuperação. Para a entidade, nem mesmo a volatilidade nos preços do petróleo, causada pela guerra no Oriente Médio, justificaria uma postura tão cautelosa por parte do Bacen.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirma que o cenário inflacionário atual já permitiria uma diminuição mais expressiva dos juros. Para ele, a inflação está desacelerando e as expectativas do mercado permanecem dentro do intervalo de tolerância da meta.

“Se estivéssemos operando hoje com uma taxa de juros entre 9% e 10%, como entendo que deveria ser, esses seriam juros compatíveis com a realidade inflacionária do Brasil. Poderíamos até considerar que não houvesse nenhuma redução adicional da taxa de juros, mas estamos em 15%”, declarou.

Segundo estimativas da CNI, a Selic deveria estar em 11,1% ao ano, ou seja, 3,4 p.p. abaixo do patamar atual. Para a entidade, isso mostra que existe espaço para cortes mais significativos sem comprometer a convergência da inflação à meta.

Endividamento causa preocupação

A CNI também ressalta que a manutenção da Selic em patamares elevados tem contribuído para o aumento do endividamento das empresas, especialmente entre micro e pequenos negócios.

Dados da Serasa Experian indicam que 2025 encerrou com um recorde de 8,9 milhões de empresas inadimplentes no Brasil, totalizando R$ 213 bilhões em dívidas negativadas em dezembro. Desse universo, 95% são micro e pequenos empreendimentos, os mais impactados pelas condições restritivas de crédito.

No âmbito das famílias, o cenário também é preocupante. Informações recentes do Bacen mostram que 49,9% dos lares brasileiros possuem algum tipo de dívida, o maior índice da série histórica.

O gerente de Política Econômica da CNI, Kleber Castro, explica que, por ser a principal referência no mercado de crédito, a Selic influencia diretamente tanto a contratação quanto a quitação de dívidas.

“A Selic tem permanecido em alta há algum tempo, fazendo com que as taxas de juros dos empréstimos também subissem, forçando empresas e famílias a destinarem uma parcela maior de seus orçamentos e caixa para o pagamento dessas dívidas. Isso resultou em níveis recordes de inadimplência”, enfatiza.

Segundo Castro, a manutenção da taxa em nível elevado também desestimula a tomada de novos empréstimos e freia investimentos no setor produtivo.

Impactos do petróleo e cenário internacional

Apesar das tensões no Oriente Médio elevarem os preços internacionais do petróleo, o impacto para o Brasil tem sido relativamente menor quando comparado a países europeus. Isso ocorre porque o país é exportador líquido da commodity e utiliza biocombustíveis no mercado interno, diminuindo a dependência externa.

Embora a alta do petróleo possa pressionar temporariamente a inflação doméstica, ela também impulsiona a entrada de dólares pelas exportações, contribuindo para o equilíbrio da economia. Esse fluxo é reforçado pela entrada de capital estrangeiro no mercado acionário brasileiro.

Como resultado, o real acumula valorização de cerca de 10% frente ao dólar desde o início de 2026, movimento que ajuda a conter pressões inflacionárias externas.

A previsão da CNI é que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — índice oficial de inflação no Brasil — feche 2026 em 4,4%, abaixo do limite máximo de tolerância da meta (4,5%).

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