O protagonismo feminino vai muito além da celebração do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março. Mesmo diante de vulnerabilidades sistêmicas, as mulheres vêm se destacando em diversos setores da economia brasileira, principalmente no empreendedorismo. Segundo o relatório técnico do Sebrae referente ao 4º trimestre de 2024, o Brasil conta com 30,4 milhões de proprietários de negócios, dos quais 10,4 milhões são mulheres. Esse número, recorde na série histórica, representa um crescimento de aproximadamente 33% na última década.
Esse progresso é impulsionado por iniciativas como as do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), vinculado à Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB). A entidade trabalha para reduzir fragilidades estruturais e ampliar as oportunidades de liderança para as mulheres empreendedoras.
Para a presidente do CMEC, Ana Claudia Brada Cotait, o primeiro passo para quem quer abrir um negócio é a formalização. “A mulher formalizada tem um campo maior de atuação e chances de conquistar mercado”, afirma.
Brada Cotait também ressalta a importância da capacitação: “Para exercer um cargo de liderança, seja como CEO, parlamentar ou empreendedora de serviços, a qualificação é fundamental”.
Desigualdades estruturais
Embora a participação feminina nos negócios tenha avançado, o cenário ainda mostra desigualdades. No 4º trimestre de 2024, as mulheres correspondiam a 51,7% da população em idade ativa, mas apenas 34,1% dos proprietários de negócios. Essa discrepância evidencia fragilidades estruturais que afetam a sustentabilidade e o crescimento dos empreendimentos liderados por mulheres.
De acordo com relatório do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP), somente cerca de 25% dos recursos destinados a pequenos negócios chegam às mulheres, enquanto a maioria dos financiamentos beneficia empreendimentos masculinos. A presidente do CMEC aponta a disparidade no acesso ao crédito como um dos principais obstáculos, resultando em menos capital para investir em estoque, inovação e profissionalização.
Nesse contexto, também se destacam as taxas de juros mais elevadas para empreendedoras. Estudo do Sebrae mostra que as empresárias, especialmente as microempreendedoras, pagam taxas médias efetivas superiores às dos homens.
Outro desafio mencionado por Ana Claudia Brada Cotait é a jornada dupla ou múltipla enfrentada pelas mulheres, que, segundo a presidente do CMEC, reduz o tempo disponível para capacitação, networking e gestão estratégica.
Além de administrar o próprio negócio, o Instituto Rede Mulher Empreendedora destaca que 58,3% das empreendedoras são chefes de família. “Normalmente, a mulher precisa conciliar diversas responsabilidades ao mesmo tempo: trabalhar, cuidar do lar e da família. Muitas são arrimo de família, mães solo que criam os filhos sozinhas. Eu mesma sou um exemplo disso”, relata a empresária.
As desigualdades raciais também permeiam o ecossistema empreendedor. O Sebrae evidencia ainda, em seus estudos, que negócios de mulheres negras tendem a ser menores, menos formalizados e com renda média inferior.
Políticas públicas
O cenário demonstra a urgência de um olhar mais atento para a trajetória profissional feminina, especialmente para o desenvolvimento do setor no país.
A deputada federal Adriana Ventura (NOVO/SP) lamenta a falta de apoio e crédito para as mulheres no empreendedorismo. Segundo ela, é fundamental que entidades se dediquem a capacitar mulheres para que não “dependam de ninguém”.
“Existem algumas iniciativas muito importantes e trabalhos de entidades sérias que realmente querem colocar a mulher onde ela merece estar, capacitá-la e dar todo o apoio necessário. Muitas vezes a mulher empreende por necessidade. São várias as situações em que se observa a falta de conhecimento específico, apoio e crédito. Por isso, é fundamental contar com entidades como a CACB, o CMEC e tantas outras que buscam verdadeiramente inserir a mulher no mercado para que ela possa se desenvolver, crescer, sair da pobreza e passar a não depender de ninguém”, afirma.
Ventura ressalta ainda que “no mês da mulher, é essencial que todos reflitamos sobre a importância da mulher na formação de uma sociedade. E, para isso, o empreendedorismo é fundamental”.
Brada Cotait reforça que, em 2026, é necessário consolidar os avanços da participação feminina no setor. Da mesma forma, é preciso reduzir as diferentes vulnerabilidades que limitam o progresso das mulheres. Para ela, as políticas públicas devem focar nas seguintes áreas:
- Linhas de crédito: ampliar produtos financeiros com juros e garantias compatíveis à realidade das micro e pequenas empresárias, incluindo planos específicos para MEIs lideradas por mulheres e negras.
- Desburocratização dos serviços: expandir e digitalizar capacitação, consultorias e redes de mentoria, oferecendo horários e formatos que atendam jornadas reduzidas.
- Compras públicas: criar cotas e incentivos para que compras governamentais e grandes redes contratem produtos e serviços de empreendedoras.
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