A Floresta Amazônica é capaz de se recuperar mesmo após sofrer impactos significativos, como queimadas, longos períodos de seca e tempestades intensas. As árvores voltam a crescer e os processos ecológicos se restabelecem. Contudo, essa regeneração não acontece exatamente da mesma forma, pois a floresta se recompõe com menor diversidade de espécies e maior sensibilidade a novos distúrbios.
Essa é a principal conclusão de uma pesquisa publicada na revista PNAS, baseada em duas décadas de observação de campo realizada por cientistas brasileiros. O estudo revela que, após os danos, algumas espécies mais sensíveis desaparecem ou se tornam raras, enquanto outras, mais resistentes e adaptadas a ambientes adversos, passam a predominar.
O efeito não resulta na transformação em savana
Os autores afirmam que esse efeito sobre a vegetação não leva à transformação da Amazônia em savana, como algumas hipóteses sugeriam. De acordo com o estudo, a floresta continua existindo, porém com uma composição mais simplificada e homogênea em certas áreas.
Ao mesmo tempo que demonstra capacidade de recuperação, o estudo alerta para um ponto crítico: a floresta alterada fica mais vulnerável a eventos extremos.
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Secas mais severas, incêndios frequentes e o avanço do desmatamento tornam o sistema mais frágil. As mudanças climáticas globais pioram esse cenário, afetando funções essenciais da floresta, como o armazenamento de carbono e a regulação das chuvas.
Fenômenos climáticos de grande escala, como o El Niño — que altera os padrões de chuva ao aquecer o oceano Pacífico — também influenciam esse equilíbrio, afetando a frequência e intensidade dos impactos.
Os impactos são maiores nas bordas da floresta
Os pesquisadores notaram diferenças importantes dentro da própria floresta. Nas áreas mais internas, afastadas das bordas, a vegetação se recupera mais rapidamente quando o fogo é controlado, mantendo níveis relativamente estáveis de diversidade.
Já nas regiões próximas a áreas abertas, como pastos, estradas ou plantações, a recuperação é mais lenta e incompleta. Entre 2004 e 2024, essas bordas perderam parte significativa da diversidade de espécies, com reduções que chegaram a quase metade em certos casos. A diversidade se reduziu entre 20% e 46% nesse período.
Isso acontece porque o contato com áreas abertas muda a temperatura, umidade e outros aspectos do microclima.
Outro fator que contribuiu para esse processo foi a presença de gramíneas. Elas se espalharam principalmente nas bordas após incêndios mais intensos e favoreceram o surgimento de novos focos de fogo mais fortes, dificultando a regeneração das árvores. Algumas dessas plantas têm origem africana, como a Andropogon gayanus, além de espécies como Imperata e Aristida longifolia, comuns em ambientes de pastagem.
Com o avanço da vegetação arbórea ao longo do tempo — especialmente a partir de meados da década de 2010 — essas gramíneas perderam espaço. Atualmente, sobrevivem apenas em pequenas áreas mais sombreadas. Isso indica que, apesar das alterações profundas, não há evidências de uma conversão permanente da floresta a um ambiente semelhante à savana.
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