Termos como “konnichiwa”, “arigatou” e outras palavras que até pouco tempo eram desconhecidas agora fazem parte do dia a dia de uma turma da Escola Municipal de Educação Infantil Professor James Macellaro Thomé. Uma vez por semana, as crianças dividem espaço entre o português e o japonês e descobrem que aprender uma nova língua também pode acontecer brincando, cantando, desenhando e experimentando na prática.
É essa a proposta do projeto Nihongo – “Entre Culturas: Bilinguismo, Infância e Sonhos na Educação Pública”, realizado com crianças de 5 e 6 anos pela assistente de aluno Dayane Freire dos Santos e por sua filha, Laura Mori, de 13 anos. “Nihongo” significa, justamente, “idioma japonês”. A iniciativa também conta com o apoio da professora regente Jennifer Oliveira e do assistente cuidador Daniel Seabra.
O projeto amplia o repertório cultural dos pequenos e oferece contato com uma segunda língua ainda na Educação Infantil. Como nessa etapa as crianças estão iniciando a leitura e a escrita, não se trata de decorar longas listas de vocabulário: o japonês é apresentado por meio de músicas, jogos, dramatizações, produções artísticas, festivais tradicionais, culinária e outras atividades práticas.
Aprender fazendo
Na quarta-feira, dia 2, por exemplo, a sala ganhou sabores do outro lado do mundo. Depois de aprenderem palavras e expressões em japonês relacionadas à alimentação, as crianças participaram de uma oficina de onigiri, o tradicional bolinho japonês feito de arroz e geralmente moldado em formato triangular ou oval.
Para Dayane, a combinação entre palavra, imagem e experiência torna o aprendizado mais natural e prazeroso nessa faixa etária. “Começamos com palavras curtas e depois trouxemos festividades, culinária e músicas do Japão. Como eles ainda estão iniciando a leitura e a escrita, priorizamos o visual e a prática. Eles aprendem uma palavra, fazem uma comida, pintam um desenho, conhecem uma festividade. Assim, vão aprendendo e se divertindo”, explicou.
A estratégia agradou a turma. Arthur Silva, de 6 anos, já lembra algumas expressões e aprovou a experiência gastronômica. “Gostei muito de fazer o bolinho japonês e achei bem gostoso. Já aprendi algumas palavras, como ‘konnichiwa’ e ‘arigatou’. As aulas são legais”, contou.
Mark Jobson, também de 6 anos, encontrou nas aulas uma ligação com interesses que já fazem parte de seu universo. “Estou gostando muito. Adoro assistir Pokémon e Naruto e tenho o sonho de viajar o mundo. Quero conhecer o Japão”, disse.
O interesse pela cultura japonesa já transbordou a sala de aula. Maria Júlia Casagrande, de 6 anos, integra o Educa Talentos na categoria Dupla Dinâmica, ao lado da estudante Gabriela Lima, com apresentações de músicas infantis japonesas. Na primeira etapa, as duas interpretaram Donna Iro Gasuki e, na segunda, Iro Iro Tanketai. Garantiram vaga na final da competição, prevista para o fim de outubro, na Praça Fábio Marques Paracat.
Uma oportunidade que nasceu dentro de casa
A ideia do projeto começou a partir da vivência pessoal de Dayane: a filha teve contato com uma segunda língua ainda pequena e, anos depois, passou a estudar japonês. Observando as crianças da escola, a assistente percebeu que poderia levar uma experiência semelhante a estudantes que nem sempre têm acesso a outros idiomas fora da escola.
A escolha pelo japonês também teve motivos práticos. Além do interesse da filha, Dayane viu a chance de apresentar às crianças uma cultura que tem ligações históricas com Roraima.
Esse vínculo aparece até dentro da própria James Macellaro Thomé: a secretária da unidade, Ionara Doi, é descendente de uma das primeiras famílias japonesas que chegaram ao estado, o que aproxima ainda mais o conteúdo trabalhado em sala da história da comunidade escolar.
“Pensei: minha filha teve acesso a uma segunda língua nessa idade, mas muitas dessas crianças não têm essa oportunidade. Por que não trazer isso para cá? Temos também a influência da cultura japonesa em Roraima e, inclusive, membros de uma das famílias japonesas mais antigas do estado dentro da própria escola. Então pensamos no japonês e começamos a planejar”, contou Dayane.
De aluna a professora voluntária aos 12 anos
Laura Mori voltou ao ambiente onde um dia foi estudante para compartilhar o que vem aprendendo. Ex-aluna da Rede Municipal de Ensino, ela estuda japonês há cerca de dois anos e participa voluntariamente das atividades, ajudando as crianças nos primeiros contatos com o idioma. As aulas começaram com palavras simples e evoluíram para elementos culturais, festividades e pequenas frases.
O interesse de Laura pelo Japão nasceu pela cultura pop, como animes e mangás. Com o incentivo da mãe, a curiosidade virou estudo do idioma. Agora, o conhecimento que ela adquiriu retorna à escola pública e alcança uma nova geração de crianças.
Para ela, assumir pela primeira vez o papel de quem ensina tem sido desafio e recompensa. “É a minha primeira vez ensinando, então tem sido desafiador, mas está sendo muito bom. Saber que estou incentivando crianças pequenas a aprender outras línguas me deixa muito feliz e orgulhosa”, disse.
Muito além das palavras
Os resultados observados por Dayane vão além do vocabulário. Ao conhecer aspectos da cultura japonesa, as crianças também desenvolvem valores como cuidado com os espaços, organização, convivência e respeito ao próximo.
Segundo ela, as mudanças já aparecem na rotina da turma e nas famílias. “As crianças ficaram muito empolgadas. Trouxemos também temas como organização da sala e do pátio, cuidado com o colega e com o ambiente. Os pais relatam que os filhos querem cozinhar em casa, cantam músicas diferentes e falam sobre o que aprenderam. Tem aluno que não quer faltar porque sabe que naquele dia terá aula de japonês. Para mim, esse é o melhor retorno”, destacou.




