A aposta online deixou de ser vista apenas como uma forma de entretenimento para as mulheres brasileiras, passando para muitas delas a ser encarada como uma estratégia para complementar a renda ou enfrentar dificuldades financeiras. É o que revela a pesquisa Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias, realizada pelo estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia. Os dados indicam que 42% das mulheres no país já apostaram ou ainda apostam em plataformas online – dessas, 20% continuam jogando e 22% pararam de apostar.
O estudo demonstra que a relação com as apostas varia conforme a situação familiar. Mulheres com filhos apostam mais do que aquelas sem filhos e, segundo a pesquisa, esse comportamento está menos ligado ao lazer e mais à tentativa de lidar com as despesas e responsabilidades financeiras do lar.
A psicóloga clínica Laynara Paiva, de Brasília (DF), ressalta que a promessa de uma renda extra pode se tornar mais atraente em contextos de vulnerabilidade financeira e emocional.
“Para algumas mulheres, especialmente em momentos de dificuldades financeiras, sentimento de insuficiência da própria renda ou até em situações de relações abusivas, a aposta pode inicialmente parecer uma possibilidade de renda extra”, explica Paiva.
Já a psicóloga Denise Milk, de Triunfo (RS), alerta que, quando as expectativas de ganhos extras passam a guiar o comportamento, a aposta deixa de ser vista como entretenimento e se transforma em uma tentativa de solucionar problemas financeiros.
“A aposta não é renda extra. Quando começa a ser usada como estratégia para pagar contas ou resolver dificuldades financeiras, aumenta muito o risco de entrar em um ciclo de perdas e novas apostas na tentativa de recuperar o dinheiro perdido”, destaca Milk.
As especialistas afirmam que, para algumas mulheres, a aposta deixa de ser encarada como jogo e começa a ser vista como uma estratégia econômica. Nesse cenário, alertam que a situação pode se tornar preocupante do ponto de vista psicológico, pois o jogo passa a ter caráter compulsivo.
“Existe uma diferença fundamental entre diversão e compulsão que precisa ser discutida. Na diversão, a pessoa decide quando parar; na compulsão, não. Parar deixa de ser uma escolha emocionalmente tolerável”, pontua Paiva.
A pesquisa também revela que especialmente para as mulheres, as apostas estão relacionadas a ideais como a busca por uma vida digna e o cuidado da família. Foram analisados ainda os motivos que levam as mulheres a realizarem apostas online.
Confira as razões que levam as mulheres a apostarem online:
- Ganhar dinheiro rapidamente: 22%
- Divertir-se ou entreter-se: 19%
- Identificar boas oportunidades para ganhar dinheiro: 18%
- Curiosidade: 17%
- Complementar a renda e ajudar a pagar despesas básicas: 16%
- Buscar emoção e adrenalina nas apostas: 13%
- Quitar uma dívida: 11%
A psicóloga clínica Laynara Paiva destaca que quando a pessoa passa a projetar na aposta a expectativa de resolver problemas que pertencem a outras áreas da vida, o comportamento deixa de ser apenas recreativo.
“Na verdade, não deveria nem ser considerado recreativo. Apostas possuem um risco muito perigoso para as famílias brasileiras atualmente”, complementa Paiva.
Consequências das apostas online
As psicólogas explicam que as apostas combinam mecanismos de expectativa, recompensa e antecipação, que reforçam a sensação de que é possível ganhar novamente. Até mesmo uma pequena vitória aumenta a confiança e estimula novas apostas.
Segundo os especialistas, o problema surge quando, após uma perda, aparece a necessidade de recuperar o dinheiro em vez de interromper o comportamento. A partir daí, pode se formar um ciclo de perdas, com tentativas de recuperação que comprometem a renda familiar.
De acordo com Laynara Paiva, nesse momento a aposta deixa de estar relacionada só ao dinheiro:
“A pessoa para de apostar apenas para ganhar e começa a apostar para reparar uma perda, criando um ciclo: perde, tenta recuperar, aumenta o risco, perde de novo, aposta mais. Há também uma dimensão emocional envolvida – para algumas pessoas, apostar representa não só dinheiro, mas esperança, autonomia, possibilidade de mudança e uma leve sensação de controle.”
O ciclo de perdas e tentativas de recuperação pode extrapolar o aspecto financeiro, afetando diretamente a rotina familiar. Para a psicóloga Denise Milk, o impacto é maior quando a mulher é responsável pelas despesas e cuidados do lar.
“Quando o dinheiro destinado às despesas da família começa a ser comprometido, surgem sentimentos de culpa, vergonha, necessidade de esconder as perdas e conflitos domésticos. Psicologicamente, observamos também ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, alteração do sono e crescente preocupação com o jogo”, aponta Milk.
Como ajudar homens e mulheres que apostam online?
Para oferecer ajuda a quem aposta, o primeiro passo é identificar quando o hábito deixa de ser ocasional e começa a impactar negativamente a rotina e os relacionamentos.
Confira os sinais de alerta indicados pelas psicólogas:
- Aumento progressivo dos valores apostados;
- Preocupação constante com o jogo;
- Uso de dinheiro destinado a outras necessidades;
- Pedidos de empréstimo e endividamento;
- Mudanças emocionais, como irritabilidade, ansiedade e inquietação quando a pessoa não pode apostar.
Família e amigos desempenham papel fundamental na identificação do problema e na busca por ajuda. Segundo Denise Milk, comportamentos como dívidas inexplicáveis, pedidos frequentes de dinheiro, isolamento, alterações no sono e tentativas de ocultar as apostas podem indicar perda de controle. Contudo, a abordagem deve evitar acusações ou julgamentos.
“Confrontar com acusações, ameaças ou julgamentos tende a aumentar vergonha e resistência. O melhor caminho é conversar baseando-se em fatos observáveis, demonstrar preocupação genuína e incentivar busca por ajuda profissional”, orienta Milk.
As especialistas ressaltam que acolher não significa assumir dívidas ou encobrir as consequências. A família deve apoiar, mas também estabelecer limites para não incentivar a continuidade do comportamento.
Perfil dos apostadores
O estudo inédito mostra que mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos.
No recorte racial, 45% das mulheres autodeclaradas pardas afirmam que apostam ou já apostaram; 39% são brancas e 37% são mulheres pretas.
Observa-se ainda que, para homens apostadores, ter filhos atenua o julgamento social, enquanto para mulheres apostadoras ocorre o contrário: com filhos, a mulher é mais culpabilizada e questionada como provedora.
A dinâmica das apostas também varia conforme o gênero: mulheres apostam sozinhas e escondem o jogo da família por vergonha. Os dados apontam que 30% das mulheres costumam apostar mais à noite ou madrugada, contra 20% dos homens.
Pesquisa
O levantamento foi feito a partir de estudos qualitativos e quantitativos para dimensionar o fenômeno em níveis nacionais.
Nas entrevistas qualitativas, 60 pessoas foram ouvidas, principalmente mulheres entre 18 e 58 anos, das classes C, D e E, residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe. As entrevistas ocorreram em junho e julho de 2026.
Na enquete quantitativa, participaram 2.008 homens e mulheres de todo o país, entre 8 e 9 de julho de 2026. A coleta de dados seguiu a distribuição populacional do Censo Demográfico de 2022 e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2025, ambos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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