A dessalinização da água do mar pode reduzir riscos operacionais, garantir a continuidade da produção e fortalecer a sustentabilidade do setor produtivo. É o que defende a Confederação Nacional da Indústria (CNI) em estudo apresentado durante o Congresso ALADYR Brasil 2026, realizado pela Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água, em São Paulo.
Intitulado “Segurança Hídrica Industrial: O Papel da Dessalinização no Brasil”, o estudo analisa o nível de desenvolvimento da tecnologia, custos de implantação, impactos ambientais e oportunidades de financiamento para ampliar a segurança no abastecimento de água no setor industrial.
A dessalinização é o processo de remoção de sais e outros minerais da água do mar ou salobra, tornando-a adequada para diversos usos, incluindo consumo humano e atividades produtivas. A técnica mais usada atualmente é a Osmose Reversa (OR), onde a água é pressionada através de membranas semipermeáveis que retêm sais e outras substâncias dissolvidas.
Para o diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto de Oliveira Muniz, a segurança hídrica virou um fator estratégico para a competitividade industrial.
“Para a indústria, a água deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser uma variável estratégica, que determina onde investir, como produzir e se a operação resiste a crises. Reúso e dessalinização são respostas concretas para a adaptação às mudanças climáticas“, afirma.
O gerente de Recursos Naturais da CNI, Mário Cardoso, destaca que a água é um insumo essencial usado tanto como matéria-prima quanto nos processos produtivos, como resfriamento, lavagem e geração de vapor. A falta dela pode levar à redução da produção ou até a paralisação das fábricas, causando impactos em toda a economia.
“Quando a fábrica para, o primeiro a sentir é o trabalhador, depois a cadeia de fornecedores e o município”, explica. Cardoso informa que, mesmo antes do desabastecimento, a insegurança hídrica eleva os custos das empresas, que precisam recorrer a caminhões-pipa, buscar fontes emergenciais e manter estoques para evitar interrupções.
Ele também alerta para os efeitos da escassez de água no setor elétrico. No Brasil, a dependência da geração hidrelétrica faz com que crises hídricas possam afetar a produção de energia, aumentando os riscos para a economia.
“Com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, garantir água virou fator de competitividade. O investidor escolhe onde instalar uma fábrica considerando a segurança hídrica. Por isso, a CNI trata o tema como uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, não só como questão ambiental”, afirma.
Mudanças climáticas ampliam desafios para a segurança hídrica
Mário Cardoso apresentou o estudo a especialistas latino-americanos no painel “Mudanças climáticas e segurança hídrica: desafios para a economia latino-americana”, que contou com a participação do assessor da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Tibério Pinheiro, e foi moderado pelo diretor da ALADYR, Eduardo Pedroza.
Na apresentação, Cardoso destacou os impactos de eventos climáticos sobre a população e a economia brasileira. Segundo o Atlas Digital de Desastres no Brasil, eventos climáticos atingiram 83% dos municípios entre 2014 e 2023, afetaram 177 milhões de pessoas e causaram prejuízos de R$ 421 bilhões.
Os efeitos econômicos podem ser ainda maiores no longo prazo. Um estudo do Ministério do Planejamento, no âmbito da Estratégia Brasil 2050, estima que a falta de medidas contra as mudanças climáticas pode custar até R$ 17,1 trilhões ao PIB brasileiro até 2050, além de eliminar 4,4 milhões de empregos.
Na América Latina, cerca de 150 milhões de pessoas vivem com escassez hídrica, segundo o Banco Mundial.
No Brasil, apesar da grande disponibilidade hídrica agregada, a distribuição da água é desigual. Conforme a ANA, a Região Hidrográfica Amazônica concentra cerca de 81% das águas superficiais, enquanto o semiárido nordestino sofre com escassez recorrente.
Nesse contexto, a indústria deve buscar alternativas para reduzir a dependência de fontes convencionais e enfrentar períodos de restrição hídrica. Dados do relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025 mostram que a demanda de água industrial chegou a cerca de 175 m³/s em 2025.
Tecnologia avança e reduz custos da dessalinização
O estudo da CNI ressalta os ganhos de eficiência da Osmose Reversa nas últimas décadas. O consumo energético para dessalinizar a água, que chegava a 20 kWh/m³, caiu para entre 2,0 e 4,0 kWh/m³ em instalações modernas e de grande porte.
Apesar dos avanços, a eletricidade representa entre 40% e 60% dos custos operacionais de uma usina. No Brasil, o custo da água para uso industrial varia entre US$ 0,50 e US$ 0,80 por metro cúbico, conforme o estudo.
O investimento médio global em projetos de grande escala é estimado em cerca de US$ 900 por metro cúbico diário instalado.
A localização da população e polos industriais favorece a adoção da tecnologia. Aproximadamente 111,27 milhões de brasileiros, ou 54,8% da população, vivem até 150 km da costa, onde estão concentrados importantes centros industriais.
No entanto, a proximidade do mar não elimina desafios ligados ao custo da energia, infraestrutura e impactos ambientais. A viabilidade depende das características e demandas de cada região.
Fundo Clima pode financiar projetos industriais
Para estimular novos projetos, o estudo cita linhas de crédito do Fundo Clima – Indústria Verde, operado pelo BNDES.
Segundo a CNI, além do acesso ao financiamento, o avanço da dessalinização necessita de segurança jurídica para os investimentos, especialmente em relação às regras ambientais para descarte da salmoura e tributação de equipamentos e insumos usados nas usinas.
Definir essas regras pode ajudar a reduzir incertezas e ampliar a escala dos projetos no país.
Desafios para a dessalinização
Mário Cardoso aponta que o maior obstáculo para expansão da dessalinização no Brasil é regulatório, e não tecnológico ou financeiro.
“A tecnologia já está madura e funciona em algumas situações no Brasil. O custo operacional é competitivo e há financiamento pelo Fundo Clima no BNDES. O que falta é segurança jurídica. Não existem regras nacionais claras para licenciamento das usinas nem para descarte da salmoura”, explica.
A ausência de diretrizes faz com que cada projeto seja avaliado isoladamente, o que prolonga licenças e aumenta incertezas para investidores, dificultando o crescimento da tecnologia.
Para pequenas empresas, uma alternativa é investir em soluções compartilhadas. Cardoso sugere que distritos e polos industriais criem centrais de reúso de água para atender várias empresas, dividindo custos de investimento e operação.
“A pequena empresa pode também comprar água como serviço, pagando pelo metro cúbico entregue e sem precisar imobilizar capital na planta”, complementa.
Outra medida é adotar licenciamento proporcional ao risco ambiental. “Empresas que reaproveitam água internamente sem impacto não deveriam enfrentar a mesma burocracia de grandes projetos. Simplificar regras também reduz custos”, defende Cardoso.
Ele lembra ainda a importância de ampliar acesso a crédito para pequenas e médias indústrias, com financiamentos menores via bancos regionais e parceiros. O SENAI pode apoiar com diagnósticos e assistência técnica para identificar e implementar soluções de reúso de água.
Projetos brasileiros demonstram viabilidade da tecnologia
O levantamento da CNI reúne experiências nacionais de dessalinização para diferentes fins, desde o abastecimento de grandes complexos industriais até comunidades rurais.
Exemplos apresentados:
- ArcelorMittal Tubarão (ES): maior usina de dessalinização do mar no Brasil, com investimento de R$ 50 milhões e capacidade inicial de 500 m³/h (suprindo 80 mil pessoas). Usa sistema de recuperação de energia que reduz em 50% o consumo elétrico e descarta salmoura diluída em canal da usina (800 m³/h diluídos em 48.000 m³/h).
- Fortaleza (CE): Parceria Público-Privada (PPP) de 30 anos com Cagece e Consórcio Águas de Fortaleza, investimento total de R$ 3,1 bilhões, sendo R$ 526 milhões diretos, para usina com capacidade de 1 m³/s (31,5 milhões m³/ano).
- Fernando de Noronha (PE): Investimento de R$ 22 milhões da Compesa em usina que gerou ganho de 85,7% na receita e terminou o racionamento hídrico na ilha.
- Programa Água Doce (PAD): Atende >200 mil pessoas em comunidades rurais do semiárido, com sistemas comunitários de 400 L/h, custo de instalação entre R$ 423 mil e R$ 445 mil.
- Ilhabela (SP): Projeto Sabesp com capacidade para 30 L/s, que aumentará em 22% a oferta de água potável para cerca de 7.000 famílias, previsto para começar 2026.
- CPFL (RN): Sistema fotovoltaico integrado à dessalinização, fornecendo água potável para mais de 800 famílias no semiárido potiguar.
CNI amplia agenda de reúso e adaptação climática
O estudo integra a estratégia da CNI voltada à segurança hídrica industrial, iniciada em 2017. Em parceria com federações industriais e o Centro Internacional de Referência em Reúso de Água da USP (Cirra/USP), a entidade já elaborou dez estudos sobre reúso de efluentes.
Projeções indicam que o Brasil pode ampliar em até 13 vezes a capacidade de reúso industrial, com investimentos estimados em R$ 1,89 bilhão, gerando retorno econômico direto de R$ 5,9 bilhões para o setor.
A iniciativa resultou também em manual metodológico para avaliar a viabilidade do reúso industrial em países da América do Sul, lançado recentemente pela CNI.
Outra publicação é o Guia da Indústria para Adaptação às Mudanças Climáticas, lançado em 2026, que reúne diagnósticos, metodologias e medidas práticas para ajudar empresas a identificar riscos climáticos e adotar estratégias de adaptação.
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