Selic em 13,75% continua sendo um fator de restrição, analisa a CNI

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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic, que foi reduzida para 13,75% ao ano. Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), essa decisão é acertada, porém ainda excessivamente cautelosa. A entidade defende a continuação do ciclo de flexibilização monetária.

De acordo com a CNI, o excesso de prudência adotado pelo Copom não é justificado diante da desaceleração da inflação, que acumulou uma até agosto. A entidade também destaca a melhora nas expectativas do mercado, que apontam para uma convergência gradual da inflação em direção à meta de 3% ao ano no horizonte relevante para a política monetária.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirma que o Banco Central deve prosseguir com o ciclo de redução da Selic. “Manter a taxa básica em um patamar tão restritivo por um período prolongado significa impor à economia um custo maior do que o necessário para assegurar a estabilidade de preços. Há espaço para avançar no ciclo de cortes sem comprometer a convergência da inflação para a meta”, defende.

A entidade ressalta que a Selic está 3,45 pontos percentuais acima da taxa considerada ideal, calculada em 10,3% com base na Regra de Taylor. Esse parâmetro permite calcular uma taxa de juros que proporcione o controle da inflação sem desestimular o crescimento econômico.

Já a taxa real de juros, próxima de 9%, continua bem acima da taxa neutra estimada pelo próprio Banco Central, em torno de 5%. Esse nível é considerado compatível com uma política que não estimula nem freia a atividade econômica. Para a CNI, esse diferencial indica que há margem para cortes mais expressivos da Selic sem comprometer o processo de convergência da inflação para a meta.

Juros elevados pressionam crédito e endividamento

A entidade chama atenção para os efeitos da alta taxa de juros sobre o custo do crédito. Em julho de 2026, a taxa média das operações com recursos livres atingiu 47,7% ao ano, aumento de 1,8 ponto percentual em 12 meses. O avanço foi mais intenso entre as pessoas físicas, cuja taxa média alcançou 60% ao ano. Entre as empresas, os juros médios chegaram a 25,4% ao ano.

O encarecimento do crédito também tem pressionado a capacidade de pagamento dos tomadores. Nas operações com recursos livres, a inadimplência atingiu 7,8% entre as pessoas físicas, o maior nível da série histórica, e 4,2% entre as pessoas jurídicas.

Entre as famílias, o endividamento correspondia a 49,8% da renda em junho, próximo ao recorde da série histórica, de 49,9%. Já o comprometimento da renda com o serviço da dívida alcançou 28,9%, também o maior nível da série. Para a CNI, esses indicadores mostram que o aperto monetário continua impondo custos elevados às famílias e às empresas.

O superintendente de Economia da CNI, Marcio Guerra, afirma que a manutenção dos juros em níveis elevados pode contribuir para uma desaceleração mais acentuada da economia, mesmo com a redução do ritmo da inflação.

“O consumo das famílias está em retração. Então, do lado do consumo, existe uma tendência de desaquecimento da inflação. Por outro lado, esse patamar muito elevado de juros tem trazido consequências diretas para as famílias e empresas”, avalia.

Segundo Guerra, o alto custo do crédito também afeta as empresas que precisam de recursos para manter operações ou realizar investimentos.

Investimento é algo fundamental quando pensamos em crescimento econômico. Ou seja, a taxa de juros elevada atualmente causa um desestímulo significativo aos investimentos e, por consequência, a economia permanece estagnada”, afirma.

Indústria prevê maior necessidade de crédito

A indústria está entre os setores diretamente afetados pelo custo elevado do crédito, conforme a nova edição da Consulta Empresarial sobre Juros, Crédito e Custos Financeiros, realizada pela CNI.

Nos próximos três meses, as empresas esperam aumento da necessidade de capital de giro e encarecimento do crédito. A pressão será maior sobre as obrigações correntes:

  • 56% das empresas preveem maior necessidade de financiamento para contas a pagar;
  • 50% esperam aumento da demanda por crédito para manutenção de estoques;
  • 49% esperam maior necessidade de financiamento para contas a receber.

Entre as empresas que pretendem buscar mais crédito, cerca de 60% também aguardam elevação das taxas cobradas.

Esse cenário tende a pressionar as margens das empresas. Segundo a pesquisa, 57% esperam redução da margem líquida, enquanto cerca de um terço prevê aumento do endividamento bancário.

No entanto, a possibilidade de repasse dos custos aos preços é limitada. Mais da metade das empresas (53%) pretende manter os preços estáveis para preservar a competitividade, enquanto 35% planejam reajustá-los para cima.

Para a CNI, esses resultados indicam que uma parcela significativa da indústria deverá absorver o aumento dos custos financeiros, com impacto na rentabilidade e na capacidade de investimento.

Atividade econômica perde ritmo

Os dados mais recentes sobre a atividade econômica apontam para uma desaceleração do crescimento. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, abaixo da expansão de 1,1% no primeiro trimestre do ano.

A demanda interna perdeu força nesse período. O consumo das famílias caiu 0,4%, enquanto a indústria de transformação permaneceu estagnada. O crescimento da atividade industrial concentrou-se na indústria extrativa, que avançou 3,4%. Os dados são do IBGE.

Para a CNI, o enfraquecimento da demanda interna, principalmente nos segmentos mais sensíveis ao custo do crédito, reforça a necessidade de continuidade da flexibilização monetária.

O PMI Industrial do Brasil, elaborado pela S&P Global, também indicou deterioração nas condições da indústria de transformação. O índice caiu de 47,5 pontos em julho para 46,3 em agosto, o menor nível em 40 meses.

Mercado de trabalho não evita desaceleração

Apesar da resiliência do mercado de trabalho, com ocupação e renda em níveis elevados, o desempenho não tem impulsionado o aumento da demanda doméstica. O consumo das famílias recuou 0,4% no segundo trimestre, indicando que a transmissão dos ganhos de renda para o consumo tem sido limitada, entre outros fatores, pelo elevado custo do crédito.

Na avaliação da CNI, a resistência do mercado de trabalho, isoladamente, não caracteriza um quadro de excesso de demanda que justificaria a interrupção do ciclo de cortes da Selic.

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