Carne, farinha, manteiga e cebola: uma receita que carrega memórias e atravessa gerações. Em Roraima, a paçoca de carne vai além do prato — está nas mesas familiares, nos comércios locais e nas festas populares, reunindo sabores, lembranças e costumes que ajudam a contar a trajetória do povo roraimense.
Esse valor cultural acabou ganhando reconhecimento formal. Desde fevereiro de 2025, a paçoca de carne é oficialmente Patrimônio Cultural Imaterial de Roraima, conforme a Lei Estadual nº 2.108/2025. Ainda em 2025, outra legislação confirmou a importância local: a Lei Federal nº 15.195/2025 declarou Boa Vista a Capital Nacional da Paçoca de Carne com Farinha.
Os registros oficiais reforçam que a relação com a paçoca vai muito além da culinária. Para Alda Amorim, superintendente de Turismo da Fundação de Educação, Turismo, Esporte e Cultura (FETEC), cuidar da paçoca é preservar parte essencial da memória do estado.
“A paçoca de carne simboliza grande parte da nossa história e da identidade roraimense. É um alimento ligado às raízes, à vida rural, aos encontros em família — simples na preparação, mas cheio de memória afetiva e tradição transmitida de geração a geração. Ao reconhecê-la como patrimônio cultural, afirmamos que ela é mais do que comida: é um capítulo da história de Roraima”, afirmou.
Da mesa roraimense para o mundo
Embora tenha sido passada por décadas de forma caseira, nos últimos anos a paçoca ganhou projeção nacional e internacional. Um dos principais responsáveis por essa visibilidade é o Boa Vista Junina, onde a preparação da Maior Paçoca do Mundo se tornou um dos eventos mais aguardados.
A tradição teve início em 2015, quando foram feitas 500 kg. Desde então a quantidade aumentou progressivamente. Em 2024, a paçoca entrou para o Guinness World Records com 1.356 kg, consagrando-se como a Maior Paçoca de Carne do Mundo.
E a marca continuou a crescer. No Boa Vista Junina 2026 foi registrado novo recorde: 1.593,5 kg. A fabricação envolveu mais de 15 dias de trabalho, mobilizou dezenas de profissionais e fornecedores de vários municípios de Roraima e, após a pesagem, a paçoca foi distribuída gratuitamente para cerca de 10 mil pessoas.
Para o prefeito de Boa Vista, Marcelo Zeitoune, o alcance da paçoca mostra como uma tradição pode virar motivo de orgulho e projetar a cidade.
“A paçoca integra a história de quem nasceu aqui e de quem escolheu Roraima para viver. É um sabor que remete à família, à tradição e à nossa identidade. Quando Boa Vista leva essa cultura ao Boa Vista Junina e a mostra para o Brasil e o mundo, valorizamos o que é nosso. Temos orgulho de ser a Capital Nacional da Paçoca de Carne com Farinha e de ver essa tradição sendo transmitida às próximas gerações”, afirmou o prefeito.
Turismo que também passa pelo sabor
A projeção da iguaria ajuda a fortalecer outro setor importante: o turismo. Para Alda Amorim, provar a culinária típica é uma forma direta de o visitante conhecer a história e os costumes de um lugar.
“Ao valorizar a paçoca transformamos um traço da nossa identidade em experiência para quem visita Boa Vista e Roraima. O turista não só degusta o prato, como conhece sua história, os ingredientes, os costumes e as pessoas que perpetuam essa tradição. Isso fortalece restaurantes, empreendedores, produtores e toda a cadeia do turismo. A paçoca passa a ser também uma marca do destino”, explicou.
Esse papel cultural ganhou destaque recentemente, quando Boa Vista sediou o encontro “Patrimônio Criativo de Boa Vista: Tempo, Identidade, Inclusão Produtiva e Renda”, realizado pela Prefeitura em parceria com instituições como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A programação abordou a preservação e valorização das referências culturais e sua ligação com identidade, inclusão produtiva e geração de renda.
Uma tradição para as próximas gerações
O título de patrimônio imaterial traz também um desafio: garantir que os saberes, as práticas e as memórias ligados à paçoca continuem vivos. Para Alda, isso depende em grande parte do envolvimento das novas gerações.
“Quando crianças e jovens conhecem a história da paçoca e compreendem sua importância para Roraima, fortalecemos o sentimento de pertencimento. O patrimônio precisa estar vivo no cotidiano, ser transmitido, valorizado e comemorado continuamente”, ressaltou.




