O fim da chamada “taxa das blusinhas” pode resultar na perda de 109 mil empregos e reduzir cerca de R$ 21,8 bilhões na produção interna. Esse alerta é da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado em uma nota técnica que avalia os impactos da eliminação do Imposto de Importação sobre o volume e valor das compras internacionais de até US$ 50.
De acordo com o gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo, antes da supressão do imposto, parte do consumo atualmente direcionado às compras internacionais via Programa Remessa Conforme (PRC) seria orientado para produtos e serviços produzidos no Brasil.
“A removal do Imposto de Importação no Programa Remessa Conforme, a ‘taxa das blusinhas’, intensifica o crescimento do volume importado pelo programa. Essa expansão já vinha ocorrendo: um número maior de compras de pequeno valor está sendo importado e mais recursos são enviados ao exterior. Com a eliminação do imposto, esse movimento se torna mais acelerado”, explica.
Azevedo ressalta ainda que os produtos nacionais enfrentam uma carga tributária maior que a dos importados, o que amplia a diferença de competitividade entre eles. Para o economista, a “taxa das blusinhas” ajuda a diminuir parte dessa assimetria.
“Portanto, a eliminação do imposto evidencia ainda mais essa disparidade entre a tributação de produtos nacionais e importados. Sem isso, há um incentivo maior para a aquisição de produtos importados — devido à diferença de tributos e, consequentemente, de preços, que frequentemente é significativa. Isso contribui para o aumento contínuo do volume de importações pelo Programa Remessa Conforme”, detalha.
O superintendente de Economia da CNI, Marcio Guerra, também adverte sobre os efeitos da aprovação da Medida Provisória 1.357/2026, que prevê a eliminação do imposto sobre compras internacionais de até US$ 50.
“Zerar o imposto para produtos de até US$ 50 cria um tratamento tributário diferenciado para as importações. Isso prejudica o mercado interno, viola a isonomia, a livre concorrência e o princípio constitucional de proteção ao mercado interno como patrimônio nacional. A retomada da cobrança do imposto é essencial para que a indústria brasileira recupere sua competitividade”, afirma.
Fim do imposto deve aumentar as importações
De acordo com estimativas da CNI, cerca de 249,5 milhões de encomendas de baixo valor devem ingressar no país por meio do Programa Remessa Conforme em 2026, representando um aumento de 56,3% em relação a 2025. Em termos financeiros, as importações devem alcançar US$ 4,6 bilhões, um aumento de 65,7% na comparação anual.
No entanto, esse crescimento seria menor caso o Imposto de Importação sobre compras de até US$ 50 fosse mantido. Nessa situação, uma parcela maior dos consumidores seria incentivada a adquirir produtos no mercado nacional, ao invés de recorrer às compras internacionais.
Com a manutenção da tributação, a CNI projeta 194,9 milhões de remessas e US$ 3,2 bilhões em valor importado para 2026. Esses números indicariam aumentos de 22,1% no volume e de 16,2% no valor importado em comparação com 2025.
Assim, comparando os dois cenários projetados pela CNI, o fim da “taxa das blusinhas” deve elevar em 28% o número de remessas e em 42,6% o valor das importações em relação ao cenário em que a tributação sobre compras de até US$ 50 seria mantida.
Indústria de transformação será a mais impactada
Conforme o estudo, para cada R$ 1 importado pelo Programa Remessa Conforme, deixam de ser gerados R$ 3,11 ao longo das cadeias produtivas no Brasil.
O impacto se concentra principalmente na indústria de transformação. Como muitos dos produtos comprados pelo programa — como eletrônicos, vestuário e outros bens de consumo — competem diretamente com itens fabricados no Brasil, cerca de dois terços do efeito total afetam esse setor.
Segundo a CNI, o fim da “taxa das blusinhas” pode provocar a perda de 70 mil empregos na indústria de transformação e reduzir em R$ 15,5 bilhões a produção do setor.
VEJA MAIS:
- Com o fim da ‘taxa das blusinhas’, setor produtivo pede isenção do imposto de exportação
- “Taxa das blusinhas” manteve cerca de 135 mil empregos e R$ 20 bilhões na economia, segundo a CNI




