Minha visita ao Festival Interlagos 2026: como tecnologia e segurança estão reinventando as motos

Minha visita ao Festival Interlagos 2026: como tecnologia e segurança estão reinventando as motos

Atendido ao convite da Triumph, visitei o Festival Interlagos para ver de perto as novidades da marca. No entanto, andando pelo evento, algo acabou chamando minha atenção mais do que potência, cilindrada ou estilo: a quantidade de tecnologia que vem chegando às motocicletas e, sobretudo, a rapidez com que recursos antes exclusivos de modelos caros começam a se tornar comuns.

Para contextualizar: além de escrever frequentemente sobre tecnologia e o universo automotivo, eu sou muito piloto. Muito mesmo. A moto faz parte da minha rotina, estou sempre na estrada, às vezes na pista e, sempre que possível, em cima de duas rodas.

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Então, quando observo esse tipo de avanço, não faço isso só com a curiosidade de entusiasta de tecnologia, mas também como motociclista, refletindo sobre o quanto tudo isso altera nossa experiência ao pilotar.

Não me refiro apenas a uma tela TFT atraente ou à possibilidade de parear o celular com a moto. Estou falando de IMU, a Unidade de Medição Inercial, um conjunto de sensores capaz de detectar os movimentos da motocicleta e parâmetros como inclinação. Com esses dados, sistemas como o ABS e o controle de tração podem agir levando em conta a dinâmica da moto durante uma curva.

Além da IMU, radares, controle de cruzeiro adaptativo, suspensões eletrônicas, diferentes soluções de transmissão e quickshifter demonstram como a tecnologia está transformando nossa interação com a motocicleta.

O Festival Interlagos foi uma ótima oportunidade para ver tudo isso reunido.

A segurança vira protagonista

A própria Triumph, que me convidou para o evento, ilustra bem essa mudança.

Dos 27 modelos e versões que analisei durante a visita, encontrei IMU em 21 deles, cerca de 78%. A Daytona 660 está entre as exceções. Mesmo nas motos de entrada da família 400, onde não há esse nível de eletrônica sensível à inclinação, já existem recursos como ABS, controle de tração e acelerador eletrônico ride-by-wire.

Ou seja, não é mais necessário estar no topo da categoria para começar a receber uma camada significativa de assistência eletrônica.

A Trident 660 atual é um bom exemplo de como essa tecnologia vem descendo de categoria. Ela já oferece ABS e controle de tração sensíveis à inclinação, além de modos de pilotagem e quickshifter.

Mais do que inserir tecnologia para a moto ser mais rápida, estamos usando tecnologia para ajudar o piloto a gerenciar melhor toda essa performance.

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Os radares chegaram às motos

Mas a evolução não para na IMU.

Um dos exemplos que melhor mostram o quão próximas as motocicletas estão ficando do nível de assistência eletrônica dos carros são os radares.

A Ducati Multistrada V4 é um ótimo caso. A moto usa radares dianteiro e traseiro para viabilizar sistemas como controle de cruzeiro adaptativo e detecção de ponto cego. Na prática, o radar dianteiro permite que a moto ajuste aceleração e frenagem para manter uma distância selecionada do veículo à frente, enquanto o traseiro monitora veículos em áreas fora do alcance dos retrovisores.

Até pouco tempo, isso era algo que associávamos quase exclusivamente a automóveis com sistemas avançados de assistência ao condutor. Hoje já existe também sobre duas rodas.

A eletrônica também transforma a suspensão

E não é somente na segurança ativa que essa evolução aparece. A eletrônica também está mudando a forma como a própria motocicleta responde ao terreno e às condições de uso.

Já há motos com suspensões eletrônicas e semiativas capazes de ajustar seu funcionamento conforme o modo de pilotagem, a carga e as condições do piso.

Além disso, vemos soluções de ajuste de altura e pré-carga que tornam motos de maior porte mais fáceis de controlar em baixa velocidade e nas paradas. Ao mesmo tempo, fabricantes novos experimentam outras arquiteturas, incluindo soluções pneumáticas em determinados modelos da Benda, por exemplo.

São tecnologias distintas, mas que seguem a mesma direção: fazer com que a moto se adapte melhor ao piloto e à situação de uso.

O painel deixou de ser só um painel

Outra mudança importante acontece bem à frente do piloto.

Painéis TFT coloridos, integração com smartphone e, principalmente, recursos de espelhamento de tela estão chegando em motos mais acessíveis.

E o mais relevante não é apenas ter uma tela maior ou mais atraente. Isso começa a transformar o uso tradicional do painel.

Ele deixa de mostrar apenas velocidade, rotações, combustível e outras informações básicas e passa a funcionar também como uma interface digital, trazendo funções do smartphone e novas formas de interação para a própria tela da moto.

É um caminho semelhante ao que já vimos nos automóveis e que agora aparece em cada vez mais categorias de motocicletas.

Nem o câmbio escapou da transformação

Talvez a área com maior diversidade de soluções hoje seja a transmissão.

Existem motos tradicionais com embreagem e câmbio manual, modelos com quickshifter, scooters e outras propostas com CVT, transmissões totalmente automatizadas e tecnologias que ficam entre o manual e o automático.

A Honda exemplifica bem essa variedade.

O DCT usa duas embreagens e pode realizar as trocas automaticamente ou permitir que o piloto selecione as marchas por comandos no guidão.

O E-Clutch segue outro caminho: mantém o câmbio convencional e o pedal de mudanças, mas torna opcional o uso da alavanca de embreagem. Na CB650R E-Clutch, você continua selecionando as marchas com o pé, enquanto o sistema pode atuar eletronicamente na embreagem.

Somadas aos quickshifters e às diferentes propostas automáticas que novos fabricantes têm trazido, hoje é difícil falar em uma única experiência de “câmbio de moto”.

A tecnologia deixa de ser luxo

Talvez essa tenha sido a impressão mais marcante que tive ao percorrer o Festival Interlagos.

Não há uma tecnologia única revolucionando as motocicletas, mas várias evoluções acontecendo simultaneamente.

É um movimento parecido com o que já vimos nos automóveis: tecnologias surgem primeiro nos modelos topo de linha, custam caro e parecem supérfluas, e aos poucos descem para os modelos mais baratos até o ponto em que estranhamos quando um veículo novo não as traz.

Talvez seja exatamente aí que as motos estão agora.

Para quem pilota, isso não quer dizer que a eletrônica esteja tirando o motociclista da equação. Pelo contrário: ela oferece mais ferramentas para que ele continue fazendo o que sempre fez — pilotar.

Mas agora com uma rede de segurança, informação e assistência que, até pouco tempo, estava restrita a poucas motos ou simplesmente não existia.

Depois de percorrer o Festival Interlagos e ver tantas dessas soluções reunidas, uma coisa ficou clara para mim: a tecnologia nas motos já não evolui apenas para entregar mais performance. Ela evolui para nos ajudar a aproveitar melhor essa performance e, principalmente, voltar para casa com mais segurança.

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