O Brasil já registrou 29.618 focos de incêndio em 2026, até a última quarta-feira (12), conforme dados da plataforma Terra Brasilis, desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os estados de Mato Grosso, Tocantins, Bahia, Maranhão e Pará acumulam os maiores números, ultrapassando 18 mil ocorrências. Esse cenário preocupa, especialmente pelo período mais seco em grande parte do país e o fortalecimento do fenômeno El Niño, que pode alterar o padrão de chuvas e aumentar as temperaturas nos próximos meses.
No ranking estadual, Mato Grosso lidera com 4.553 focos, seguido por Tocantins com 4.141, Bahia com 3.256, Maranhão com 3.121 e Pará com 3.112. Juntos, esses cinco estados respondem por cerca de 62% dos focos registrados no Brasil no período de 1º de janeiro a 12 de agosto de 2026.
Os dados indicam também uma concentração dos incêndios no Centro-Oeste, no Matopiba e na Amazônia.
Veja o ranking dos focos de incêndio por estado em 2026:
- Mato Grosso: 4.553
- Tocantins: 4.141
- Bahia: 3.256
- Maranhão: 3.121
- Pará: 3.112
- Minas Gerais: 1.767
- Roraima: 1.695
- Piauí: 1.202
- Goiás: 904
- Ceará: 750
- Mato Grosso do Sul: 674
- Amazonas: 587
- Paraná: 491
- Santa Catarina: 482
- Rio Grande do Sul: 436
- Pernambuco: 411
- São Paulo: 394
- Espírito Santo: 325
- Rio de Janeiro: 219
- Alagoas: 200
- Rondônia: 191
- Rio Grande do Norte: 183
- Paraíba: 147
- Sergipe: 131
- Acre: 121
- Distrito Federal: 63
- Amapá: 62
El Niño ganha intensidade e acende alerta para o segundo semestre
A preocupação para os próximos meses também está associada ao avanço do El Niño, fenômeno climático que consiste no aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial.
Em boletim divulgado na quinta-feira (13), a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou que o fenômeno está se fortalecendo e indicou mais de 90% de probabilidade de um evento muito forte durante o outono e inverno do Hemisfério Norte de 2026/27.
Para o período de outubro a dezembro, a agência estima 69% de chances de um evento histórico, com intensidade superior aos episódios anteriores, que remontam a 1950.
No Brasil, os efeitos esperados do El Niño variam entre as regiões. A meteorologista Andrea Ramos destaca que o fenômeno tende a modificar tanto a temperatura quanto a distribuição das chuvas:
“Para o Brasil, isso aumenta a possibilidade de temperaturas elevadas em grande parte do território e uma distribuição irregular das chuvas. Em geral, o Sul do país tende a ter chuvas acima da média, enquanto o Norte, Nordeste e partes do Centro enfrentam períodos mais secos ou com precipitações irregulares”, explica.
O Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027 aponta que a previsão climática para o trimestre de agosto a outubro de 2026 indica chuvas acima da média no Sul e abaixo da média no centro-norte do país nesse período. Além disso, há alta probabilidade de temperaturas elevadas no segundo semestre. O documento alerta que essa combinação pode aumentar onda de calor e focos de incêndios florestais.
A publicação é feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM).
El Niño e queimadas
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou em julho que o fenômeno El Niño continuará se intensificando nos próximos meses, com perspectiva de alcançar intensidade forte ou muito forte entre agosto e dezembro.
A pasta alertou para o aumento do risco de incêndios entre agosto e outubro, especialmente na Amazônia, Cerrado e Caatinga. Os estados com maior chance de fogo apontados são Amazonas, Pará, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso, com destaque para a Amazônia e parte do Brasil Central.
A meteorologista Andrea Ramos explica que o El Niño por si só não provoca os incêndios, mas cria condições que favorecem a propagação das queimadas, que na maior parte das vezes têm início por ação humana.
Segundo Andrea, o fenômeno influencia nas condições ambientais que determinam o grau de secura da vegetação e a facilidade da propagação do fogo.
“Quando temos muitos dias sem chuva, altas temperaturas, baixa umidade do ar e solo, a vegetação fica seca e inflamável. Se houver uma fonte de ignição, o fogo se espalha com mais rapidez, especialmente na presença de vento”, destaca.
O consultor climático e meteorologista Francisco de Assis aponta que o risco de queimadas no trimestre não está restrito a uma região específica.
“As condições para queimadas podem surgir tanto no centro do Brasil quanto em partes do Norte, Nordeste, Bahia, Minas Gerais, Tocantins, Amazônia, Rondônia, Acre e Mato Grosso durante o segundo semestre”, afirma Assis.
Os especialistas indicam que o cenário exige atenção especial para o Centro-Oeste, Nordeste, Cerrado e regiões leste e sul da Amazônia, principalmente durante a fase crítica da estação seca entre agosto e outubro.
“Estados como Mato Grosso, Pará, Tocantins, Amazonas e Maranhão merecem cuidado, assim como setores de Rondônia, Goiás e Mato Grosso do Sul. As previsões também apontam temperaturas acima da média, que podem intensificar a perda de umidade do solo e da vegetação”, analisa Andrea Ramos.
Previsões para 2027
O Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027 indica 100% de chance de permanência do fenômeno até pelo menos o começo de 2027, com alta probabilidade de um El Niño muito forte entre a primavera e o início do verão de 2026.
Para os especialistas, os efeitos do El Niño podem continuar em 2027, especialmente sobre temperaturas, padrão de chuvas e disponibilidade hídrica. Porém, a continuidade desses efeitos não implica que “o maior pico de queimadas será somente no próximo ano”, ressalta Andrea.
“O cenário pede atenção porque combina uma estação seca, já propícia para queimadas, com El Niño fortalecido e temperaturas elevadas. O maior risco não está em um único fator, mas na combinação de calor, baixa umidade, falta prolongada de chuvas, vegetação seca e vento”, conclui a meteorologista.
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