Na última quarta-feira (5), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou mais um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic), que atingiu 14% ao ano. Na avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a decisão foi correta. Contudo, o ritmo de redução ainda é insuficiente diante do atual cenário econômico. Para a entidade, os juros permanecem em um patamar elevado, pressionando empresas e consumidores e limitando os investimentos produtivos.
O especialista em Políticas e Indústria da CNI, Fernando Galvão, afirma que o custo alto do crédito compromete a capacidade de crescimento das empresas.
“As empresas têm comprometido suas margens de resultado e isso desestimula novos investimentos. Diante desse cenário, a CNI entende que o Banco Central deve considerar cortes mais profundos na taxa de juros para aliviar a pressão sobre a sociedade e estimular a economia, que este ano deve apresentar um dos resultados mais baixos dos últimos três anos”, destaca.
O economista e pesquisador Felipe Queiroz também avalia que a redução promovida pelo Copom foi tímida. Segundo ele, a desaceleração da inflação abre espaço para uma política monetária menos restritiva.
“Além disso, temos um cenário macroeconômico desafiador que exige uma política monetária mais alinhada às demais políticas macroeconômicas. Atualmente, estamos ceifando a capacidade de investimento e desenvolvimento do país no médio e longo prazo com uma política monetária muito conservadora. É caro investir no Brasil, especialmente em projetos estruturais, o que inviabiliza, inclusive, o aumento sustentável do PIB”, avalia.
Política monetária restritiva
Para a CNI, a melhora nas expectativas de inflação reforça a possibilidade de cortes mais intensos na Selic. Apesar da projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 ser de alta de 5,03%, as estimativas para 2027 e 2028 permanecem dentro do intervalo de tolerância da meta, conforme o Boletim Focus.
Ao mesmo tempo, os indicadores apontam para uma perda de força da inflação corrente. O IPCA-15 — prévia da inflação oficial calculada pelo IBGE — acumulou alta de 4,52% em 12 meses até julho, inferior aos 4,8% registrados no mês anterior. Na avaliação da CNI, esse resultado indica que os custos de produção pararam de subir rapidamente e o consumo está menos aquecido, reduzindo o ritmo de avanço dos preços.
Outro sinal observado pela indústria é a desaceleração dos núcleos de inflação — indicadores que excluem itens mais voláteis, como alimentos e combustíveis. Em junho, a média desses índices ficou em 4,44%, apontando uma trajetória de convergência para a meta de inflação de 3%, apesar das incertezas geopolíticas e riscos climáticos.
Felipe Queiroz enfatiza que o processo inflacionário atual no Brasil não resulta de uma demanda excessivamente aquecida.
“A maior parte da inflação que enfrentamos é decorrente de fatores exógenos à economia, como quebra de safra e um conflito internacional. Nesse contexto, a pressão inflacionária não é resolvida pela política monetária adotada pelo Banco Central. Ou seja, temos uma política monetária que é excessivamente conservadora, mas ineficaz diante das causas reais da inflação no país”, afirma.
A CNI também destaca que a política monetária permanece restritiva há 55 meses. Segundo a entidade, a Selic está 3,6 pontos percentuais acima da taxa ideal, calculada em 10,4% com base na Regra de Taylor. Esse parâmetro é usado para determinar uma taxa de juros que garanta o controle da inflação sem prejudicar o crescimento econômico.
Já a taxa real de juros, próxima de 10%, permanece muito acima da taxa neutra estimada pelo próprio Banco Central, em torno de 5%. Para a CNI, essa diferença indica que há espaço para cortes mais significativos na Selic sem comprometer o combate à inflação.
Endividamento e margens pressionadas
Uma pesquisa realizada pela CNI aponta que os juros elevados continuarão pressionando a situação financeira da indústria nos próximos três meses. Mais da metade das empresas (53%) acredita que precisará intensificar a busca por crédito para financiar contas a pagar, enquanto 47% projetam maior pressão sobre as contas a receber e 42% esperam aumento da necessidade de capital para manutenção dos estoques.
Dentre as empresas que deverão aumentar a demanda por capital, mais de 55% esperam custo de crédito elevado e cerca de 39% preveem aumento do endividamento bancário. Como consequência, 58% estimam redução das margens de lucro, comprometendo a rentabilidade e os investimentos.
Para minimizar os impactos, 51% pretendem manter os preços para preservar a competitividade frente aos produtos importados, enquanto 37% afirmam que deverão repassar parte dos custos aos consumidores, o que pode gerar novas pressões inflacionárias.
Segundo o gerente de Política Econômica da CNI, Kleber de Castro, apesar de os juros terem começado a cair, a política monetária ainda é bastante restritiva, o que contribui para a percepção dos empresários.
“A percepção do empresariado sobre custos financeiros elevados e viés de alta nos juros das operações de crédito está alinhada ao ciclo de política monetária atual: o ritmo de flexibilização é gradual, a taxa real ex-ante permanece perto de dois dígitos e a transmissão da política monetária para o custo do crédito produtivo ocorre com defasagens, limitando qualquer alívio dentro do horizonte de três meses coberto pela pesquisa”, conclui.
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