Relatório da IFI aponta panorama fiscal complicado para o próximo presidente

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O presidente que assumir após as eleições de outubro enfrentará um cenário fiscal desafiador, caracterizado por déficits primários recorrentes, dificuldades no cumprimento das metas do arcabouço fiscal e uma trajetória crescente da dívida pública. Esse é o parecer apresentado no Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de junho, divulgado na última quinta-feira (25) pela Instituição Fiscal Independente, órgão vinculado ao Senado Federal.

De acordo com os diretores da IFI, Marcus Pestana e Alexandre Andrade, as projeções para a evolução das principais variáveis econômicas e fiscais se mostram consistentes, mesmo sem considerar possíveis reformas estruturais que possam ser implementadas nos próximos anos.

Na elaboração dos cenários, a instituição considerou as incertezas geradas pelo aumento dos preços do petróleo devido aos conflitos no Oriente Médio. As estimativas também levam em conta a implementação da reforma tributária sobre o consumo, que deve impactar mais significativamente as finanças de estados e municípios e trazer efeitos positivos esperados para a eficiência e produtividade da economia brasileira.

Crescimento moderado e juros elevados

O RAF projeta um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,0% em 2026 e de 1,8% em 2027. Nos anos seguintes, a economia deve crescer, em média, 2,3% ao ano.

Para a inflação, a IFI estima índices de 5,0% em 2026, 4,0% em 2027 e 3,5% em 2028, com uma convergência para o centro da meta nos anos seguintes, quando a inflação deverá se estabilizar em cerca de 3% ao ano.

Os juros reais também devem se manter elevados. A expectativa é que a taxa básica Selic recue de 14% ao ano em 2026 para 12% em 2027, alcançando patamares próximos a 8% no médio prazo.

Receitas e despesas

Segundo as projeções da IFI, as receitas primárias líquidas devem corresponder a 18,9% do PIB em 2026 e a 18,7% em 2027, diminuindo gradualmente para aproximadamente 18,3% do PIB ao longo do período analisado.

O relatório indica ainda que a elasticidade entre receita e PIB deve cair do nível atual de 1,4 para 1. Na prática, isso significa que cada 1% de crescimento da economia deve resultar em um aumento de 1% na arrecadação do governo, reduzindo o ganho adicional de receitas observado nos últimos anos.

Já as despesas primárias devem subir de 19,2% do PIB em 2026 para 19,3% em 2027, alcançando 19,9% em 2032 e se estabilizando próximo a 19,4% do PIB nos anos seguintes.

As estimativas da IFI divergem das projeções do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027, atualmente em tramitação no Congresso Nacional, especialmente em relação ao comportamento do resultado primário (receita menos despesas primárias) e ao cumprimento das metas estabelecidas pelo arcabouço fiscal.

O relatório destaca a continuidade dos déficits primários efetivos — realidade presente no Brasil desde 2014 — e projeta um aumento consistente da relação entre a dívida pública bruta e o PIB entre 2026 e 2036.

“Embora a trajetória tenha melhorado em comparação com nossas projeções de maio de 2026, o crescimento do endividamento aponta para uma situação que pode se tornar insustentável no médio prazo”, alertam Pestana e Andrade.

Segundo a IFI, seria necessário gerar um superávit primário de 2,1% do PIB ao ano para estabilizar a relação entre dívida e PIB.

Partindo de um endividamento bruto de 80,1% do PIB registrado em abril de 2026, a instituição projeta que esse indicador chegue a 82,5% ainda neste ano, ultrapasse 100% em 2032 — atingindo 102% do PIB — e alcance 115% do PIB em 2036.

Ao encerrar o relatório, os diretores reafirmam que a IFI busca contribuir, de forma técnica, neutra e apartidária, para o debate sobre um dos principais desafios do próximo governo: o equilíbrio fiscal e suas implicações.

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