Avaliação: “Várzea — Onde Nasce o Futebol” vale a pena? Conheça a série sobre futebol amador da Netflix

Avaliação: "Várzea — Onde Nasce o Futebol" vale a pena? Conheça a série sobre futebol amador da Netflix

A Netflix aproveitou a onda da Copa do Mundo para investir em várias produções sobre futebol, que vão da série dramática Brasil 70 a documentários sobre craques como Ronaldinho Gaúcho. Na esteira desse movimento, a plataforma estreia neste sábado (20) a série documental Várzea: Onde Nasce o Futebol, que revela outro lado do esporte no Brasil.

A proposta da produção é mostrar o futebol praticado longe dos grandes estádios, em campos improvisados no meio das favelas e das comunidades. Em três episódios, acompanhamos times amadores de São Paulo na disputa da Copa Pionner, o troféu mais cobiçado pelos jogadores da várzea paulista.

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Dirigida por Alec Cutter, responsável também por “Baila, Vini”, a série documental explora um aspecto pouco mostrado do futebol na mídia. Ainda assim, é preciso ajustar as expectativas: o recorte escolhido pela produção evidencia a humildade de equipes e atletas, mas também dá visibilidade à faceta mais profissional do futebol amador.

Clubes da periferia paulista têm espaço em nova série da Netflix

A série acompanha os bastidores das finais da Copa Pionner, a competição mais organizada e comentada do futebol amador em São Paulo. Ao longo dos três episódios, o público conhece clubes de comunidades da região, como Raça Ruim, Milianos, Asa e Maranhão Esporte Clube, o conhecido MEC.

Além de mostrar rapidamente o funcionamento interno de cada time, o documentário segue algumas das principais figuras das equipes para revelar sua realidade fora das quatro linhas. É nesse ponto que a série ganha força, ao dar voz a protagonistas como Sujão, às comissões técnicas improvisadas e à luta para manter os grupos ativos ao fim de cada ciclo.

Enquanto estamos habituados a ver jogadores como Vini Jr e Neymar em festas e mansões, a rotina das estrelas da várzea é outra. Mesmo com patrocínios e marcas de apostas estampando os uniformes, os atletas mais valorizados do futebol amador raramente conseguem viver exclusivamente do futebol.

Séries trazem relatos de grandes nomes e também abordam a violência

A produção também reserva espaço para figuras como Cafu, campeão do penta, e o jogador da seleção brasileira Raphinha, ambos com ligações com os campos de terra. Os dois saíram do futebol amador das comunidades e conquistaram espaço no cenário mundial.

Os depoimentos de grandes nomes do futebol moderno enriquecem o documentário, mostrando que a várzea também revela talentos, alimenta sonhos e vai além de partidas que movimentam comunidades locais. A produção não evita um tema controverso: o crime nas favelas, dando oportunidade aos entrevistados de comentar sobre o assunto.

Raphinha, jogador da seleção brasileira, fala sobre tempos de várzea na série documental. 

Raphinha, que está disputando a Copa do Mundo nos Estados Unidos e atua como atacante no Barcelona, comentou sobre seu passado no futebol amador: “Acho que não teve nenhum estádio que eu senti tanta pressão como na várzea”, disse o atleta, “por ver o pessoal do lado de fora com arma, ameaçando a gente ou até brigando enquanto o jogo rola.”

Documentário afasta a várzea para focar no ápice do futebol amador

Entre as partidas da Taça Pionner, a série mostra a vida simples dos jogadores periféricos, as dificuldades que os clubes enfrentam e a violência que ronda esse tipo de competição nas favelas. O documentário também deixa claro o papel importante dessas equipes para suas comunidades, mas tende a não se aprofundar no que envolve a competição.

Nesse sentido, está a principal falha da produção: ela abandona as raízes da várzea — que dão nome à série — para privilegiar uma competição “premium”. Enquanto acompanhamos atletas realizando o sonho de erguer a taça em São Paulo, a narrativa perde espaço que poderia ser dedicado a personagens e histórias mais profundos.

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Quando a produção privilegia gritos, ofensas e ameaças durante as partidas em vez de mostrar a comunidade, o futebol amador tende a ser retratado como mais um estereótipo da favela. Assim, a série da Netflix perde parte da verdadeira magia da várzea: o amor pelo jogo.

Falo isso por experiência pessoal. No interior do Rio Grande do Sul, muito antes de me tornar jornalista, cresci jogando em campos de terra e disputando competições pelo Internacional de Lagoa Vermelha, clube fundado pelo meu bisavô em uma vila da cidade.

Logo depois do churrasco de domingo, meu já falecido pai, João Cesar dos Santos, pegava seu Gol quadrado branco e ia pela cidade atrás de jogadores curiosos para formar um time e disputar os campeonatos locais. Certa vez, o clube ganhou até uma ovelha como prêmio, que morou na casa dos meus avós por anos.

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Em entrevista ao jornal Folha do Nordeste, no ano de 2009, meu avô, Moisés Fonseca dos Santos, definiu bem o que é manter um time de várzea: “um ato de heroísmo”, disse ele na ocasião. “É preciso se doar de corpo e alma, o que exige uma dose cavalar de sacrifício. Não raras vezes, tirar dinheiro do próprio bolso. E quantos se dispõem a isso? Alguns poucos abnegados.”

Esse espírito da várzea aparece na série da Netflix por meio de relatos rápidos sobre as organizações, sua origem e impacto. Ainda assim, personagens fascinantes da periferia paulista perdem espaço para os “melhores momentos” das partidas da Copa Pionner. Quem sabe, em uma eventual segunda temporada, a produção possa revisitar passado e presente da várzea sem tanto apego ao lado “profissional” do futebol amador.

Vale a pena assistir?

Várzea: Onde Nasce o Futebol chega à Netflix em um momento apropriado. Se você procura algo para ver durante a Copa do Mundo, a série documental pode ser uma opção rápida para saciar a vontade de futebol.

A produção entretém com personagens interessantes e histórias que ajudam a compreender a importância da várzea para milhares de pessoas. Depoimentos de atletas, dirigentes e ex-jogadores profissionais enriquecem a narrativa e mostram como o futebol amador segue sendo porta de entrada para sonhos que muitas vezes parecem inalcançáveis.

Ao mesmo tempo, Várzea: Onde Nasce o Futebol parece mais interessada em retratar o auge do futebol amador paulista do que suas raízes. A Copa Pionner aparece como espetáculo, mas ocupa o espaço que poderia ser dedicado às comunidades, aos campos improvisados e aos personagens anônimos que mantêm essa cultura viva todos os fins de semana.

Mesmo assim, a série documental vale a pena. Ainda que não capture toda a essência da várzea espalhada pelo Brasil, a produção abre uma janela para um universo raramente mostrado pela televisão e pelos serviços de streaming. Fica a sensação de que há uma história ainda maior a ser contada — e que, talvez, uma segunda temporada possa finalmente mostrar onde o futebol realmente nasce.

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