Remake de Fatal Frame 2 mantém ótima história, mas não traz tradução para o português

Remake de Fatal Frame 2 mantém ótima história, mas não traz tradução para o português

Nostalgia é um dos maiores atrativos comerciais, sobretudo quando falamos de cultura pop. No universo dos videogames, a onda dos remakes se firmou — com reimaginações de sagas como Resident Evil, Silent Hill e até Metal Gear Solid. Entre os clássicos de terror do PlayStation 2, ainda havia uma franquia sem a modernização merecida: Fatal Frame.

Se você não conhece a série, ela foi a aposta da Koei Tecmo para surfar na febre de filmes de terror com fantasmas japoneses que dominou os anos 2000 — títulos como O Grito, O Chamado e Espíritos foram exemplos disso. O primeiro jogo saiu em 2001 para PlayStation 2 e foi bem recebido, sobretudo pela sua proposta de jogabilidade.

smart_display

Nossos vídeos em destaque

Ao contrário do combate mais visceral de franquias como Resident Evil, Silent Hill ou Parasite Eve, Fatal Frame apostava em uma mecânica baseada em fotografia para enfrentar aparições. Para isso, foi criada a Câmera Obscura, um artefato antigo capaz de capturar a frequência dos espíritos em filmes especiais. Na prática, cada disparo funcionava quase como um exorcismo contra as almas perdidas do jogo.

Tirar fotos é a forma de combate em Fatal Frame. (Fonte: Koei Tecmo)

Apesar dessa ideia de combate ser curiosa, o grande trunfo de Fatal Frame sempre foi a atmosfera pesada e perturbadora da sua história. A ambientação — quase sempre noturna, em uma antiga mansão japonesa — criava o palco perfeito para um terror psicológico denso.

Com o sucesso do primeiro jogo, a Koei Tecmo deu continuidade à franquia e lançou uma sequência em 2003 — Fatal Frame 2: Crimson Butterfly. Para muitos fãs, essa é a parcela mais marcante da série, por apresentar uma narrativa e ambientação entre as mais sombrias do PlayStation 2.

Devido à popularidade, o segundo capítulo ganhou um remake em 2012 para o Nintendo Wii. Em 2026, Fatal Frame II: Crimson Butterfly recebeu um novo remake, desta vez remasterizado para a geração atual de consoles e para PC. A dúvida é: será que vale a pena?

  • Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake foi analisado pelo Voxel no PlayStation 5, com uma chave gentilmente cedida pela Koei Tecmo.

Sinopse de Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake, sem spoilers

Sem spoilers, é útil situar a sinopse de Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake, que se mantém majoritariamente fiel ao original.

Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake acompanha as gêmeas Mio e Mayu Amakura, que, durante uma visita ao interior, se perdem e acabam em uma vila isolada e tomada por névoa. O lugar aparenta estar abandonado e repleto de sinais de um passado trágico. Enquanto procuram uma saída, as irmãs descobrem que a vila está ligada a rituais antigos e a uma calamidade que deixou marcas profundas.

À medida que exploram, Mio começa a recolher fragmentos da história dos antigos habitantes e dos acontecimentos que transformaram o local em um cenário assombrado. A narrativa mistura memórias, lendas locais e registros deixados para trás, todos carregados pelo peso das tradições comunitárias. O núcleo da história, claro, é a relação entre as irmãs, cuja ligação se enreda cada vez mais com os mistérios do vilarejo.

Nova câmera e mudanças nos visuais

Quanto às alterações desta versão, Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake impressiona inicialmente pelo visual. No entanto, logo surgem elementos que soam estranhos.

Para começar, o sistema de ajustes de HDR do jogo é pouco intuitivo e, ao menos por aqui, não funcionou como esperado. Seguindo as recomendações, as cenas diurnas acabavam exageradas em contraste, enquanto as noturnas — felizmente predominantes — ficaram mais corretas.

undefined
Ajustes de HDR não são intuitivos. (Fonte: Adriano Camacho, Voxel)

Logo no início da jogabilidade nota-se outra mudança significativa: a câmera agora é colocada por sobre o ombro. No jogo original, havia ângulos fixos que dirigiam a cena e conferiam um tom mais cinematográfico a certos momentos.

Na nova edição, essa direção de cena cede espaço ao controle direto do jogador — uma decisão com vantagens e desvantagens. Sem romantizar o passado, acredito que a intenção autoral e de direção fica mais evidente na versão de PlayStation 2.

Um bom exemplo são as aparições dos fantasmas. No original, em momentos de tensão, a câmera criava enquadramentos claustrofóbicos que elevavam o suspense até o instante da manifestação. Isso conduzia o jogador ao clímax da cena e valorizava as aparições súbitas.

No remake, essas sequências acontecem independentemente do olhar do jogador. Há sinais na trilha sonora que chamam a atenção para as aparições, mas muitas delas são tão rápidas que mal sobra tempo para reagir ou processar o acontecido. O ritmo e o suspense acabam sendo prejudicados.

No quesito modelos, animações e gráficos, admito ter me decepcionado. Gosto pessoal à parte, há uma discrepância notável entre a proposta mais realista do original e a direção de arte do remake, que pende para traços mais estilizados — quase de anime.

undefined
Apesar de bonitos, visuais das protagonistas contrasta com inimigos. (Fonte: Adriano Camacho, Voxel)

Na era do PlayStation 2, a baixa resolução ajudava a mascarar a falta de detalhes; já no remake, o problema é a indecisão sobre qual direção artística seguir. Enquanto os fantasmas exibem traços mais realistas, as protagonistas têm um visual mais cartunesco, lembrando algumas decisões vistas em projetos como o Final Fantasy VII Remake.

Com animações por vezes rígidas, essa mistura gráfica soa como uma oportunidade perdida de optar por um visual inteiramente realista ou completamente estilizado. A incoerência compromete a imersão.

Hoje em dia, a palavra “Remake” costuma remeter a transformações que preservam a essência visual do original, como ocorreu com Silent Hill 2 ou Resident Evil 4, que modernizaram gráficos mantendo a proposta original.

undefined
Fantasmas de Fatal Frame 2 Remake são realistas. (Fonte: Adriano Camacho, Voxel)

Em vários momentos, Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake soa mais como um “remaster caprichado” de um título de PlayStation 2 — um problema que também foi percebido em projetos como Metal Gear Solid Delta: Snake Eater. Modelos com aparência poligonal, animações repetitivas e a direção de arte desigual prejudicam a atualização.

Jogabilidade e novos recursos de combate

Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake traz algumas adições ao gameplay, sendo as principais: a barra de Força de Vontade e os filtros fotográficos. A primeira funciona de modo semelhante a uma barra de resistência, enquanto a segunda introduz mecânicas mais variadas.

 

Os filtros fotográficos revelam segredos no cenário e influenciam como os “ataques” afetam os espíritos. Por exemplo, o primeiro filtro encontrado pode deixá-los temporariamente cegos, permitindo fugir ou reposicionar-se.

undefined
Combate de Fatal Frame 2 Remake pode ser desbalanceado e até frustrante. (Fonte: Adriano Camacho, Voxel)

Em tese, essas mudanças viriam para equilibrar os confrontos, mas não é o que acontece. Na prática, os inimigos ganharam ajustes que aumentam bastante o dano e a mobilidade, enquanto a protagonista segue lenta, mesmo com o novo posicionamento de câmera.

Assim, os encontros se tornam mais longos e cansativos, exigindo movimentação repetitiva para enquadrar os inimigos e maximizar o dano. Antes divertida, a dinâmica agora atrapalha o ritmo da história.

De modo semelhante, outro ponto que pareceu mal trabalhado foi o excesso de telas de tutorial. Há muitos conceitos novos, sem dúvida, mas a apresentação não evoluiu muito desde o PlayStation 2: o jogador chega a ser interrompido por vários slides explicativos em momentos de tensão.

Isso por si só não seria um problema, mas a forma como foi implementado representa mais uma oportunidade perdida. Em remakes recentes, tutoriais, arquivos e inventários foram adaptados de maneira mais elegante para as plataformas modernas.

undefined
Exemplo de tutorial intrusivo. (Fonte: Adriano Camacho, Voxel)

Por outro lado, Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake parece empenhado em reproduzir até algumas falhas da era do PlayStation 2. Infelizmente, isso contribui para uma sensação de desatualização.

Falta de legenda em português é um grande ponto negativo

As críticas ao Crimson Butterfly Remake levam em conta que o jogador desembolsou ao menos R$ 284,90 nos consoles ou R$ 249,00 no PC.

Esse valor não chega a ser tão alto quanto alguns Triple A que saíram na faixa de R$ 350 — como Silent Hill 2 Remake, Dead Space Remake ou Resident Evil 4 Remake —, mas ainda não é desprezível.

Dentro desse contexto financeiro, é possível perdoar alguns problemas de Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake por conta da ótima história — mesmo que o ritmo às vezes sofra por causa do combate. Contudo, existe um problema grande que pesa na decisão de compra.

undefined
Fatal Frame 2 Remake não possui legendas em português. (Fonte: Adriano Camacho, Voxel)

Diferentemente dos remasters recentes de Fatal Frame 4 e Fatal Frame 5, Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake não traz legendas nem dublagem em português. Para um jogo centrado na narrativa, a acessibilidade linguística é essencial para aproveitamento. Se em 2003 era compreensível ignorar o mercado brasileiro, em 2026 essa escolha é difícil de justificar.

Mesmo que a tradução automática por IA não seja a solução perfeita por motivos diversos, a opção de não oferecer sequer legendas traduzidas é questionável. Como no passado, ficará a cargo dos fãs traduzir Fatal Frame II: Crimson Butterfly novamente, como já ocorreu com carinho anteriormente, dada a base de admiradores no Brasil.

Essa é uma responsabilidade da Koei Tecmo e da Nintendo, detentora da franquia, e a decisão deve pesar na escolha de muitos jogadores brasileiros — o que pode manter o jogo como um produto de nicho por aqui.

Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake vale a pena?

Embora o combate seja desequilibrado e ocasionalmente frustrante, Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake ainda entrega uma história de alta qualidade que merece ser conhecida. Fora da narrativa, porém, a apresentação visual carece de coerência e fica aquém do que se espera de um remake moderno. Para jogadores que não dependem de legendas em português, pode ser uma experiência válida e uma boa porta de entrada para a série.

Nota do Voxel – 80

Pontos positivos

  • Narrativa e ambientação cativantes;
  • Histórias secundárias recompensam exploração;
  • Quando acertam o tom, os visuais assustam;
  • Sistemas de melhorias e filtros adicionam variedade ao combate;

Pontos negativos

  • Ausência de legendas em português limita o público;
  • Visuais inconsistentes que podem quebrar a imersão;
  • Interface e menus aparentam datados;
  • Excesso de pop-ups tutoriais que interrompem a imersão;
  • Combates desbalanceados e longos que podem desmotivar quem prioriza a história.

Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake foi analisado pelo Voxel no PlayStation 5, com uma chave gentilmente cedida pela Koei Tecmo.

Plugin WordPress Cookie by Real Cookie Banner
scroll to top