BOA VISTA (RR) — Em 2017, enquanto Roraima começava a sentir na pele os primeiros impactos do maior fluxo migratório de sua história, a então prefeita de Boa Vista, Teresa Surita (MDB), tomou uma decisão que dividiu a população e deixou marcas duradouras na política local: anunciou publicamente um programa de auxílio-aluguel para famílias venezuelanas, com repasses de R$ 700 a R$ 1.200 mensais a imobiliárias que cedessem imóveis aos imigrantes.
A proposta nunca foi implementada. Mas o estrago simbólico e prático já estava feito.
O que Teresa disse e depois negou
A própria prefeita chegou a afirmar publicamente que “as ruas antes tranquilas de Boa Vista agora estão repletas de venezuelanos pobres” — um reconhecimento explícito do impacto que a cidade vivia. Mesmo assim, foi ela quem anunciou o programa de benefício habitacional aos imigrantes, com valores e critérios definidos.
Quando a repercussão negativa chegou, a gestão recuou. Da mesma maneira como anunciou de forma ampla e sem margens para dúvidas o aluguel social para imigrantes venezuelanos, e depois chamou a imprensa de mentirosa quando viu a repercussão social negativa da decisão, Teresa Surita negou publicamente ter feito a proposta.
O episódio não foi apenas uma derrota política pontual. Foi a cristalização de uma postura: priorizar o acolhimento irrestrito de imigrantes em um momento em que o estado já não dava conta nem de seus próprios cidadãos — e depois negar a responsabilidade quando a conta chegou.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos
O que aconteceu com Roraima depois
Os números que vieram nos anos seguintes mostram que o impacto foi real, profundo e crescente.
A situação dos migrantes no Brasil começou a aumentar de forma significativa a partir de 2015, mas foi em 2017 — exatamente o ano do anúncio do auxílio-aluguel — que o fluxo migratório se intensificou de maneira notável, segundo dados do UNICEF.
Na área da educação, 39% dos alunos atendidos em Pacaraima passaram a ser venezuelanos, conforme levantamento apresentado em audiência pública na Assembleia Legislativa de Roraima. Os serviços de saúde colapsaram, e a superlotação nas escolas tornou-se realidade cotidiana, com infraestrutura precária incapaz de absorver a nova demanda.
Há estimativas de que na capital, Boa Vista, chegaram a residir 70 mil venezuelanos — equivalente a 20% da população total da cidade. Os serviços públicos não conseguiram dar conta de tanta gente chegando num ritmo tão rápido.
Em 2025, Roraima foi o estado com maior crescimento populacional do Brasil. Segundo dados do OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), apenas o município de Pacaraima recebeu mais de 96 mil novos migrantes venezuelanos naquele ano, com 11 mil entrando somente no mês de outubro.
Fontes: ALE-RR | ND Mais | UNICEF Brasil
A conta que chegou e quem vai pagar
Décadas após gestos como o do auxílio-aluguel sinalizarem uma política de fronteiras abertas sem planejamento, o Brasil finalmente reconheceu formalmente o custo imposto a Roraima.
Em abril de 2026, acordo firmado pela Advocacia-Geral da União previu o repasse de R$ 115 milhões ao Estado, sendo:
- R$ 36 milhões para a área da saúde
- R$ 10 milhões para educação
- R$ 63 milhões para segurança pública
- R$ 6 milhões para o sistema prisional
Mas o próprio governador reconheceu que esse valor é insuficiente para cobrir os custos da migração — ainda chegam a Roraima cerca de 300 a 500 migrantes por dia.
Fonte: Agência Brasil / Radioagência Nacional
A vida política de Teresa: do auxílio-aluguel ao Senado
Apesar das polêmicas, Teresa Surita segue ativa na política roraimense. Na carreira, a pré-candidata disputou nove eleições e ganhou cinco para prefeita e duas para deputada federal. Ela já disputou o Governo de Roraima e o Senado, sem sucesso nessas tentativas.
Em 2026, ela tenta uma vaga no Senado Federal. Agora formalmente aliada ao ex-senador Romero Jucá (MDB), o grupo confirmou apoio à candidatura de Soldado Sampaio (Republicanos) ao Governo do Estado, entregando ao governador interino um documento denominado “Compromissos com a População”.
O mesmo grupo que em 2017 sinalizou que o dinheiro público deveria ser usado para pagar aluguel de estrangeiros agora se apresenta, novamente, como alternativa para governar Roraima.
Fontes: Roraima 1 | Folha BV | Folha BV
A pergunta que fica
Quando uma liderança política anuncia benefícios para não-residentes enquanto roraimenses aguardam vaga em hospital, matrícula escolar e emprego — e depois nega ter feito isso — qual é a mensagem enviada ao eleitor?
A entrada de 1,4 milhão de venezuelanos pela fronteira com o Brasil impôs custos reais ao país e sobrecarregou saúde, educação e segurança. Roraima, por sua posição geográfica, é o estado mais impactado de todos.
Roraima não pode se dar ao luxo de eleger para o Senado Federal quem, no momento mais crítico da crise migratória, escolheu priorizar estrangeiros enquanto a cidade afundava e depois negou ter feito isso.
A população merece representantes que coloquem Roraima em primeiro lugar.
Fonte: Revista Sociedade Militar



